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Cidades fazem escalonamento de horários por mais segurança nos ônibus durante a pandemia

A adoção do distanciamento social como forma de achatar a curva de contágio pela Covid-19 trouxe consequências diretas à dinâmica das cidades, linha de frente do combate à pandemia. Agora, com cidades brasileiras retomando atividades, o achatamento de uma outra curva ganha destaque: a de picos de demanda no transporte coletivo, para evitar aglomerações e tornar as viagens mais seguras.

Horários de pico são aqueles em que ocorre um grande número de deslocamentos na cidade. Em São Paulo, por exemplo, 38% dos deslocamentos iniciam em um período de 4 horas (6h-7h59 e 17h-18h59). Somadas as viagens que iniciam às 12h, chega-se a mais da metade dos deslocamentos diários.

<p>gráfico informativo sobre horários com mais viagens em são paulo</p>

Padrão de São Paulo (acima) se repete em outras cidades: entre horários de pico, transporte coletivo fica ocioso.


Estratégias de gestão da demanda de viagens são utilizadas mundo afora para otimizar o uso do sistema de transporte e distribuir melhor as viagens ao longo do dia, reduzindo os congestionamentos. Apesar de ser uma alternativa interessante, são poucos os exemplos de cidades que conseguem adotá-la em larga escala devido à necessidade de alinhamento político e de consenso de diversos setores econômicos.

Com a pandemia de Covid-19 e o fechamento de comércios não essenciais, contudo, essas ideias ganharam força novamente, mas por um motivo um pouco diferente: em vez de reduzir o congestionamento nas ruas, evitar aglomerações. Com a retomada das atividades econômicas, aumentam as chances de uma concentração elevada de pessoas em um mesmo espaço. Diante disso, algumas cidades brasileiras têm experimentado implementar a gestão da demanda de viagens. Fortaleza e Goiânia adotaram o escalonamento de horários de diversos setores econômicos, estipulando diferentes faixas horárias para o começo e o término da jornada de trabalho de cada setor, permitindo um achatamento da curva de pico, especialmente no transporte coletivo.

O fato de o escalonamento se apresentar como alternativa à continuidade do fechamento de diversos setores e atividades contribuiu para uma maior aceitação da ideia. Com pessoas indo e voltando do trabalho em diferentes horários, a tendência é uma redução na lotação dos ônibus e no número de carros nas vias, proporcionando melhor uso do transporte coletivo, um trânsito mais fluído e benefícios para toda a população.

Redução de demanda de até 26% em Fortaleza

Com a retomada das atividades econômicas, a capital cearense viu a necessidade de evitar aglomerações no transporte coletivo. Para tanto, teria de distribuir o carregamento de passageiros ao longo do dia. Com base na Pesquisa de Origem e Destino aplicada na cidade entre 2018 e 2019, foi definida a participação de diferentes setores econômicos nos deslocamentos feitos ao longo do dia.

No transporte público, quase 36% de toda a demanda se concentrava em 4h do dia, sendo 2h no período da manhã e 2h no da tarde. Em iniciativa conjunta da prefeitura com o governo do estado e representantes de diversos setores econômicos, planejou-se a retomada das atividades com faixas horárias distintas para o início e o término da jornada de trabalho de cada setor que não se configura como atividade essencial. Enquanto atividades como construção civil e indústria passaram a iniciar às 7h, o setor de serviços começou a funcionar a partir das 8h, o poder público às 9h e o comércio às 10h.

<p>gráfico informativo sobre horários com mais viagens em fortaleza</p>

Após o escalonamento de horários, Fortaleza tem conseguido achatar a curva de demanda do transporte coletivo

A medida reduziu em 26% a demanda no pico da manhã e 19% no pico da tarde. A redução permitiu otimizar a frota de ônibus necessária para atender à demanda, o que, a longo prazo, pode diminuir os custos de operação do sistema e, consequentemente, reduzir o preço da tarifa, beneficiando economicamente o passageiro.

Terminais menos cheios em Goiânia

Após um decreto do governo estadual de Goiás proibir o transporte de passageiros em pé, a Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo (CMTC), que faz a gestão e fiscalização do transporte coletivo em Goiânia e outros 18 municípios, viu no escalonamento de horários a solução para conseguir suprir a demanda de viagens nos horários de pico e evitar aglomerações nos ônibus e terminais. Com base nos resultados da Pesquisa de Origem e Destino, foram estabelecidas, inicialmente, cinco faixas horárias para o início de operação das atividades econômicas. Os resultados iniciais, contudo, não se mostraram promissores. Então, uma nova proposta estabeleceu 12 faixas horárias, distribuídas de acordo com as necessidades de cada setor econômico.

Foi necessário um grande esforço de entidades fiscalizatórias, que passaram a fazer um trabalho de orientação sobre o novo sistema à população da região metropolitana de Goiânia. O novo formato apresentou efeito positivo, com redução da concentração nos terminais de integração e nos picos de demanda da operação. Também foi observada uma redução no percentual de reclamações sobre o transporte coletivo, e a cobertura da imprensa sobre aglomerações nos terminais tem diminuído, o que mostra o potencial do escalonamento até mesmo para melhorar a percepção sobre o sistema.

Escalonamento será legado da pandemia?

Fortaleza e Goiânia são dois exemplos de cidades brasileiras que adotaram o escalonamento de horários através de decretos e estão colhendo frutos positivos. Outras cidades também se inspiram na estratégia, como Juiz de Fora (MG), que adequou a troca de turno da área de saúde para que não ocorresse no horário de pico do transporte coletivo.

A Covid-19 forçou grandes mudanças no mundo todo, mas também tem sido uma oportunidade para as cidades se reinventarem. Pautas que já foram consideradas muito radicais têm ganhado força, e algumas delas estão saindo do plano das ideias e tomando forma. O escalonamento de horários foi uma delas, e mesmo sendo implementado numa situação atípica, mostra seu potencial de transformação permanente. Cabe às cidades coletar dados e indicadores que demonstrem a eficiência dessas medidas e permitam que elas se tornem um legado, não só para o transporte coletivo, mas para a população como um todo.

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