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As cidades podem prosperar em tempos de crise? 3 perguntas para as cidades em 2022

Surtos de doenças contagiosas podem exercer uma influência de longo prazo no desenho urbano – muitos moldaram de forma inegável a maneira como as cidades modernas são e operam. Parques, ruas largas e até mesmo os banheiros de nossas casas são um legado importante de surtos de cólera no passado. Hoje estão tão incorporados em nosso dia a dia que são considerados elementos básicos das cidades modernas. Ao longo de gerações, as cidades se recuperaram do choque inicial do contágio e reconstruíram a confiança das pessoas depois de períodos de incerteza.

O que está em jogo hoje, neste mundo marcado pela resposta à pandemia? À medida que os contornos das cidades pós-pandêmicas começam a tomar forma em todo o mundo, surgem muitas especulações sobre o futuro das cidades. Choques como esses podem transformar fundamentalmente a forma como o mundo age em relação a desafios prioritários, como mudanças climáticas, pobreza, racismo, falta de moradia e poluição, entre muitos outros.

As respostas globais e seus resultados podem gerar avanços ou retrocessos – investimentos em uma retomada verde podem impulsionar a ação climática, mas a recuperação econômica da Austrália após a pandemia, à base de gasolina, serve como um lembrete de que não devemos considerar garantidos os retornos positivos.

3 perguntas essenciais para as cidades em 2022

Independentemente da forma que assumirão as cidades pós-pandêmicas, uma coisa está clara: estamos vivendo tempos cada vez mais turbulentos. E o mundo se aproxima de uma encruzilhada para uma ação coletiva decisiva. A crise climática, que muitos cientistas acreditam ter atingido um ponto irreversível, exige que os líderes globais tomem medidas ousadas para reduzir as emissões de carbono e se adaptar rapidamente a eventos climáticos extremos cada vez mais intensos. Em todo o mundo, a Covid-19 colocou 31 milhões de pessoas na pobreza extrema e revelou profundas desigualdades.

Tempos sem precedentes como os que vivemos nos colocam diante de três perguntas cruciais que definirão os rumos para as cidades no próximo ano e na década que está por vir.

Perturbações e incertezas são o novo normal nas cidades?

As cidades hoje enfrentam pelo menos três crises simultâneas – a pandemia global de Covid-19, a piora dos impactos da mudança do clima e o crescimento da desigualdade urbana. Só no último ano, eventos extremos – como incêndios, enchentes e ondas de calor catastróficas – e o impacto da pandemia de coronavírus em todo o mundo sugerem que esses são desafios de escala planetária. Não há nenhuma parte do mundo imune a seus efeitos. Essas três crises colocam uma pressão sem precedentes sobre a vida nas cidades e intensificam problemas pré-existentes, como exclusão social, racismo, falta de moradia e poluição.

As próprias cidades são sistemas complexos ancorados pela solidez do ambiente construído; ao mesmo tempo, estão em constante construção e têm diferentes níveis de fluxo. Além da sensação de turbulência, a pandemia, a crise climática e o aumento da desigualdade ocorrem em um cenário de inovação tecnológica acelerada e mudanças sociais.

Essas mudanças e avanços são ambíguos em seus efeitos. Novas tecnologias podem trazer esperança em tempos de emergência, como acontece com novas tecnologias de vacinação, inteligência artificial que viabiliza rastreamento, telemedicina e trabalho e aprendizado remotos. Por outo lado, alimentam dilemas éticos – como riscos de discriminação e para a privacidade – que contribuem para o clima de incerteza.

Cidades resilientes podem ser inclusivas e sustentáveis?

A defesa da resiliência como uma prioridade de planejamento e gestão veio em resposta a choques e estresse, incluindo condições extremas associadas às mudanças climáticas, terrorismo, ciberataques, crises econômicas e abastecimento e emergências de saúde como a pandemia de coronavírus.

No entanto, responder a esse triplo desafio – pandemia, mudanças climáticas e desigualdade urbana – exige que as cidades sejam não apenas resilientes, mas também sustentáveis e inclusivas. Infelizmente, esses objetivos podem divergir uns dos outros e conciliá-los pode criar dilemas de planejamento urbano complexos.

Centros urbanos densos, por exemplo, são preferíveis em relação a assentamentos espraiados por uma questão de eficiência de recursos, conectividade e acesso das pessoas a oportunidades econômicas. No entanto, quando muitas pessoas vivem muito próximas, isso também concentra sua vulnerabilidade aos mesmos riscos – sejam doenças ou desastres naturais –, a menos que medidas adequadas sejam tomadas.

Além disso, as respostas das cidades em termos de resiliência, como proteções contra enchentes, em geral são baseadas em uma abordagem de segurança de múltiplas camadas – se uma medida falhar, outras estão lá para compensar. No entanto, essas redundâncias incorporadas, que criam resiliência a choques e perturbações, podem não ser desejáveis do ponto de vista da sustentabilidade, que valoriza a eficiência e a otimização.

Os planejadores urbanos precisam considerar de forma deliberada as potenciais contradições entre resiliência, sustentabilidade e inclusão – sacrificar uma delas coloca o futuro das cidades em risco.

<p>pessoas pintando faixa de segurança para pedestres</p>

Um grupo em Kampala, Uganda, pinta uma nova travessia de pedestres para manter as pessoas seguras no tráfego de veículos motorizados. (Foto: Zahara Milele/WRI)

Como as cidades podem aprender melhor e aplicar os aprendizados?

Apesar das inúmeras diferenças locais e regionais, quando precisam de inspiração, as cidades costumam recorrer a seus pares. Em diversas áreas, como clima, justiça e questões relacionadas à sustentabilidade, este aprendizado de cidade para cidade se tornou uma prática nas últimas décadas, oferecendo às cidades um ecossistema rico de trocas.

Um exemplo poderoso da velocidade e agilidade das redes de cidades é a recente Força-Tarefa Global para Recuperação da Covid-19, criada pelo C40 Cities apenas algumas semanas depois do início da pandemia e que oferece às cidades acesso a abordagens e aprendizados em rede.

Cada vez mais cidades experimentam novos conceitos de planejamento e políticas urbanas em resposta a desafios complexos e inter-relacionados, como mudanças climáticas, desenvolvimento econômico local e a pandemia. Abordagens inovadoras, como “laboratórios de vida urbana” e “distritos experimentais” tornaram-se mais comuns e sinalizam um reconhecimento de que novas maneiras de implementar projetos, aprender e incorporar lições são necessárias no mundo complexo e incerto de hoje.

Embora o aprendizado das cidades tenha se tornado mais sistemático, ainda é possível melhorá-lo. Os processos de captação e troca de conhecimento, por exemplo, podem ser mais eficazes se os sistemas de monitoramento e a alocação de financiamento forem adaptados para apoiar o aprendizado aprofundado sobre aspectos técnicos e processos organizacionais.

Caminhos para a transformação urbana

Os especialistas nem sempre concordam sobre o que constitui uma resposta boa ou exemplar. No entanto, há uma diversidade de conceitos emergentes sendo testados em cidades de todo o mundo. Isso inclui espaços públicos populares e intervenções de infraestrutura, como superquadras, corredores verdes, ruas completas, expansão da infraestrutura para bicicletas, entre outros.

O WRI criou o prêmio WRI Ross Center Prize for Cities para ajudar a identificar e promover as maiores inovações no campo da transformação urbana inclusiva e sustentável. Um grupo global de especialistas seleciona entre os inscritos potenciais vencedores, que são avaliados em termos do impacto transformador que geram em suas cidades. Finalmente, um júri independente formado por líderes em questões urbanas define em votação o vencedor.

Os projetos premiados em edições anteriores mostraram que visão, construção de coalizões e perseverança são essenciais para sustentar a mudança e amplificar as lições aprendidas. O prêmio principal da edição de 2020-2021 foi concedido ao programa Produção de Alimentos Sustentáveis para uma Rosário Resiliente, um programa de agricultura urbana de longo alcance da cidade de Rosário, na Argentina. Em 2019, o prêmio inaugural foi concedido ao SARSAI, um programa da organização sem fins lucrativos Amend, pela abordagem de alto impacto e facilmente replicável para criar trajetos mais seguros até a escola para crianças em Dar es Salaam e outras cidades africanas.

Agora em seu terceiro ciclo, o prêmio – que tem como tema para a edição de 2021-2022 “Prosperando Juntos em Tempos Turbulentos” – reconhece que, em um período de incertezas e turbulências sem precedentes, são necessárias ideias e abordagens convincentes para orientar nossas ações em direção a atrativos futuros urbanos alternativos. Projetos e iniciativas que demonstrem como viver e prosperar em tempos turbulentos e ajudem cidades e comunidades a reagir às incertezas, perturbações e crises são convidados a se inscrever.


Artigo publicado originalmente no WRI Insights.

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