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Lições da Crise Financeira de 2008 para uma retomada verde da pandemia de Covid-19

Os governos avançam por um território desconhecido à medida que respondem aos impactos da pandemia de coronavírus – mas isso não significa que não podem aprender com o passado.

A comparação mais recente é com a crise financeira global que começou em 2007, que é chamada globalmente de Grande Recessão, mas ficou mais conhecida no Brasil como Crise de 2008. Foi um revés econômico menor do que o que vivemos hoje e o mundo não enfrentava uma pandemia ao mesmo tempo, mas, na época, a recessão era a pior desde a Grande Depressão de 1929. Entre 2008 e 2009, governos em todo o mundo haviam lançado grandes pacotes de estímulo econômico para reativar suas economias.

Lições importantes emergiram, especialmente a partir de governos que pensaram à frente de seu tempo, incluindo projetos de sustentabilidade como parte dos pacotes de estímulo. Um novo estudo do WRI investiga o que deu certo e o que não deu.

Gastos em estímulos verdes: Crise Financeira de 2008 x Recessão do Coronavírus

Depois da crise financeira de 2007-09, os governos anunciaram cerca de US$ 520 bilhões para medidas verdes como eficiência energética, modernização da matriz energética, ferrovias, energia renovável e gestão de resíduos e água. Com base em nossa análise das 10 maiores economias, a quantidade anunciada para estímulos verdes como resposta à recessão desencadeada pelo coronavírus mantém o mesmo patamar, embora os países na liderança sejam outros.

Em 2008 e 2009, China, Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão foram os que mais gastaram em estímulos verdes, mas, até aqui, todos eles se comprometeram com uma quantidade de recursos menor em resposta à Covid-19. Por outro lado, economias como União Europeia (UE), Alemanha e França planejam gastar mais em estímulos verdes agora do que fizeram há 12 anos.

Se a UE atingir as metas de investimento climático estabelecidas em seu pacote de estímulo, chamado de Next Generation EU (“União Europeia da Próxima Geração”), atualmente em fase de finalização, serão mais de US$ 265 bilhões, o maior investimento em estímulo econômico verde da história.

Gráfico compara os estímulos anunciados na Crise Financeira de 2008 e nos pacotes de resposta à Covid-19

No entanto, mesmo nos países que estão à frente na questão, os estímulos verdes em resposta à crise da Covid-19 até aqui ainda representam uma porcentagem menor do total de estímulos em comparação à Crise Financeira de 2008, porque os pacotes de recuperação econômica praticados hoje são muito maiores. Estados Unidos, Japão, União Europeia e Alemanha anunciaram, cada um, pacotes que passam de US$ 1 trilhão, uma marca que nenhum país atingiu durante a última crise financeira.

As respostas mais decepcionantes vêm dos Estados Unidos e do Japão, que falharam ao não estabelecer a sustentabilidade como prioridade. Entre 2008 e 2009, os EUA dedicaram 12% do total de seu pacote de estímulo a medidas verdes, direcionando mais recursos à energia renovável do que qualquer outro país. Na situação atual, até novembro deste ano, menos de 1% do pacote de US$ 3 trilhões anunciado pelo país para a recuperação da pandemia é verde. Durante a crise financeira passada, o Japão direcionou 6% de seu pacote de estímulo a medidas verdes; hoje, praticamente nenhuma parte de seu pacote de US$ 2 trilhões pode ser considerada verde.

Gráfico mostra a porcentagem de estímulos verdes dentro dos pacotes de estímulos na Crise Financeira de 2008 e nos pacotes de resposta à Covid-19

De certa forma, é compreensível que a parcela de estímulos verdes nos pacotes de recuperação da Covid-19 sejam menore, uma vez que boa parte dos gastos é focada em respostas emergenciais essenciais, como serviços de saúde e seguro desemprego. No entanto, cerca de 30% do total dos estímulos está indo para setores que terão um impacto substancial no meio ambiente – e infelizmente, na maioria dos países, isso deve causar um impacto negativo. Porém, ainda há espaço para investimentos verdes que podem gerar mais empregos e criar a base para um futuro mais saudável e próspero.

Os estímulos verdes funcionaram nos esforços de recuperação da Crise Financeira de 2008?

Evidências mostram que os países que mais investiram em estímulos verdes em 2008 e 2009 foram bem-sucedidos em criar empregos e impulsionar suas economias, embora em alguns casos a recuperação tenha sido mais lenta do que o esperado.

Os estímulos econômicos dos EUA contribuiram para a geração de 900 mil empregos/ano (empregos em tempo integral ao longo de um ano) no setor de energia limpa de 2009 a 2015. Os estímulos verdes da Coreia do Sul ajudaram o país a se recuperar mais rápido do que o esperado da crise econômica e criaram 156 mil novos empregos diretos entre 2009 e 2011. Na União Europeia, cada US$ 1 em investimento verde aumentou o PIB em até US$ 1,50. Na China, o rápido investimento em ferrovias, redes elétricas e outras iniciativas verdes teve um reflexo imediato no PIB – cerca de 4,2% acima da linha de base em 2009 e 3,6% acima da linha de base em 2010.

Em muitos casos, no que diz respeito à criação de empregos, os estímulos verdes foram tão eficientes quanto ou até mais eficientes do que investimentos tradicionais ou em combustíveis fósseis. Nos Estados Unidos, por exemplo, os gastos com estímulos ao transporte coletivo levaram a 70% mais horas trabalhadas do que gastos equivalentes em rodovias. A restauração de habitats em áreas costeiras criou 17 empregos/ano para cada US$ 1 milhão investido – mais do que os gastos com combustíveis fósseis teriam alcançado.

Depois da crise financeira de 2008, no longo prazo, o investimento em produção e pesquisa em energia limpa ajudou os países a construir novas indústrias competitivas. China, Estados Unidos e Alemanha se tornaram lideranças em energia renovável em parte devido aos programas adotados com a Crise Financeira de 2008. A capacidade de produção de energia solar fotovoltaica na China aumentou 20 vezes entre 2007 e 2011. Nos Estados Unidos, a parcela de equipamentos de turbinas eólicas fabricados internamente passou de 25% em 2006-07 para 72% em 2012.

Por que os estímulos verdes dão certo ou errado

Depois da Crise Financeira de 2008, alguns países conseguiram gastar seus pacotes de estímulo rapidamente, enquanto outros levaram anos. A Coreia do Sul foi rápida na distribuição dos recursos – quase 20% do pacote já havia sido desembolsado em meados de 2009, em comparação a apenas 3% na maioria dos países.

Em alguns países, nem todos os gastos anunciados foram de fato concretizados porque os governos rescindiram os fundos ou os projetos sofreram atrasos. Enquanto os Estados Unidos gastaram 89% dos estímulos verdes alocados inicialmente, a Austrália, por exemplo, gastou apenas 34%.

Alguns projetos, como incentivos à energia renovável ou adaptações de eficiência energética em construções, começaram a ser postos em prática com mais facilidade. Outros mais complexos, como trens de alta velocidade ou processos de captura e armazenamento de carbono, avançaram em um ritmo mais lento ou acabaram cancelados. Os mesmos tipos de programas podem dar certo ou errado dependendo da forma como são implementados.

Na Austrália, um programa de retrofit residencial foi cancelado devido a uma implementação mal regulamentada, com o uso de tecnologias de eficiência energética que não eram adequadas para todas as casas, entre outras questões de segurança. Os Estados Unidos, por sua vez, obtiveram sucesso com o mesmo tipo de programa porque canalizaram os gastos por meio de programas já existentes e forneceram opções de reformas mais abrangentes, passíveis de serem adaptadas às necessidades específicas das residências.

Só em 2010, o Programa de Assistência à Climatização dos EUA (Weatherization Assistance Program) apoiou, direta e indiretamente, 28 mil empregos e reduziu as emissões de carbono em 7,4 milhões de toneladas métricas – o equivalente a tirar cerca de 1,6 milhão de carros das ruas por um ano.

À medida que os pacotes de estímulos começam a ser implementados, como parte dos esforços de recuperação econômica do novo coronavírus, é importante questionar se os governos vão desembolsar totalmente seus compromissos verdes. Em muitos países, a falta de transparência depois da crise financeira global fez com que fosse difícil responsabilizar os governos e fazê-los prestar contas das decisões tomadas. Além disso, alguns dos projetos não eram tão verdes quanto pareciam, como o programa de financiamento da China para infraestrutura ferroviária e de rede elétrica, que apoiava o uso de carvão, ou o projeto para a restauração de um rio na Coreia do Sul, que construiu novas barragens, com impactos ambientais questionáveis.

Só estímulos verdes não são suficientes para a descarbonização

Embora os investimentos verdes feitos em 2008 e 2009 tenham ajudado a estimular a economia, o impacto que tiveram nas emissões de gases de efeito estufa ainda não é claro. As emissões globais caíram em 2009 devido à recessão, mas retomaram a curva ascendente depois da recuperação econômica e continuaram a subir por anos. Embora essa informação soe desanimadora, é possível que a trajetória das emissões tivesse sido ainda pior sem os gastos verdes. Algumas pesquisas têm sugerido que, em países que gastaram mais em estímulos verdes, a nova infraestrutura de baixo carbono construída melhorou a eficiência energética em longo prazo em comparação às expectativas.

Embora seja difícil precisar o impacto dos estímulos verdes nas emissões de GEE depois da Crise Financeira de 2008, está claro que faltaram reformas em outros setores da economia que geram emissões. Os subsídios aos combustíveis fósseis, por exemplo, caíram durante a recessão, mas voltaram a subir de forma significativa logo depois, apesar da promessa do G20 de reduzi-los. Entre 2008 e 2013, o mundo gastou seis vezes mais em subsídios a combustíveis fósseis do que em subsídios para energia renovável.

Gráfico mostra como os subsídios a combustíveis fósseis superam os subsídios para energia limpa globalmente

Como garantir que os estímulos verdes funcionem na recuperação da Covid-19

Ainda há tempo para os governos mudarem a direção nas futuras ondas de gastos com estímulos econômicos para a recuperação do coronavírus – ou ajustar os pacotes atuais à medida que forem implementados. Nos Estados Unidos, a administração de Biden tem a oportunidade de introduzir novos estímulos verdes, e o Japão deu indicativos de que seu novo pacote de recuperação vai focar na transição para uma sociedade verde.

Os governos podem criar mais empregos e encaminhar um crescimento mais forte e resiliente ao aumentar a parcela destinada a medidas climáticas em seus pacotes de recuperação econômica do coronavírus. Atentando para as lições de uma década atrás, os governos devem ter como foco projetos que possam ser expandidos com agilidade, evitando tecnologias ainda não testadas e projetos de infraestrutura mais complexos. Devem definir com clareza quais projetos são considerados verdes e aumentar a transparência. Por fim, devem associar os planos de estímulo econômico a outras mudanças políticas, como reduzir os subsídios a combustíveis fósseis, introduzir a precificação de carbono e estabelecer limites e padrões de emissões. Juntas, essas estratégias vão fortalecer os efeitos dos estímulos verdes e ajudar os governos a gerar os empregos e a renda de que suas economias precisam.


Este blog foi publicado originalmente no Insights.

Para saber mais sobre o assunto, leia “Lições aprendidas com o estímulo verde: estudos de caso da crise financeira global” (disponível em inglês).

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