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Nível de exigência para empresas que querem liderar a ação climática aumentou

O último relatório do IPCC mostra que estamos em uma encruzilhada. De um lado um planeta habitável e do outro um mundo com eventos climáticos ainda mais extremos, insegurança hídrica, alimentar e uma sociedade desigual. Uma mudança sistêmica de escala industrial é essencial para um futuro habitável e alguns indicadores podem ajudar a acompanhar se estamos progredindo.

No que diz respeito à sustentabilidade corporativa, as metas baseadas na ciência têm sido um indicador de referência para avaliar se uma empresa vai cumprir seus compromissos de redução de emissões. Essas metas são alinhadas com o nível apontado pelos cientistas como necessário para limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C e prevenir os piores impactos das mudanças climáticas.

De acordo com o relatório de 2021 da iniciativa Science-Based Targets (SBTi), as mais de três mil empresas que estão na iniciativa representam hoje mais de um terço da economia global (US$ 38 trilhões) e estão reduzindo emissões duas vezes mais rápido do que o necessário para manter o limite de 1,5°C. As empresas da SBTi cortaram suas emissões (de escopo 1 e 2) em 29% desde 2015 e, juntas, diminuíram as emissões de CO2 em 53 milhões de toneladas – o equivalente a tirar mais de 60 milhões de carros das ruas.

Esse é um cenário muito distante daquele em que nos encontrávamos dez anos atrás, quando apenas algumas poucas empresas possuíam objetivos de redução de emissões alinhados à ciência climática. Uma empresa com metas baseadas em evidências científicas era muito mais propícia a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa do que uma que houvesse definido um objetivo arbitrário ou não tivesse estabelecido nenhum compromisso. Na época, estabelecer essas metas também era uma maneira de as empresas demonstrarem que reconheciam a realidade das mudanças climáticas.

Contudo, conforme a definição de metas baseadas na ciência se tornou uma prática mais comum, o cenário mudou positivamente – e, com ele, o padrão que se espera em termos de ação climática corporativa. Não podemos mais contar apenas com as metas baseadas na ciência como único indicador de avanço.

Os padrões para a liderança climática corporativa aumentaram. Agora precisamos de planos de ação.

Por que as empresas precisam publicar planos de transição climática

Hoje, existem novos padrões e indicadores adicionais para medir a liderança climática. Um deles é adotar uma agenda climática de políticas públicas baseada na ciência. Outro fator fundamental é a divulgação de como a empresa pretende cumprir suas metas por meio de planos de transição climática.

Os planos de transição climática podem ser entendidos como o equivalente, no setor privado, dos planos nacionais de ação climática (também chamados de Contribuições Nacionalmente Determinadas, ou NDCs. Ambos têm o objetivo de traçar caminhos para a ação. Os planos corporativos de transição climática devem atender a três propósitos:

  • Responsabilização dos atores: investidores, governos, funcionários, clientes e organizações da sociedade civil conseguem ver se a ação climática acontece rápido o suficiente ou se há lacunas que ainda precisam ser preenchidas pelas empresas ou por outros atores. Não queremos perceber depois de cinco anos que uma empresa não cumpriu suas metas porque traçou inicialmente um plano inadequado.

  • Planejamento de políticas públicas: organizações da sociedade civil, governos e empresas podem eles próprios determinarem o quanto de ação climática será obrigatório. Também é possível que os planos corporativos evidenciem que as empresas podem atingir parcialmente suas metas de redução de emissões por meio de ações voluntárias, mas que precisam de ações obrigatórias por meio de políticas públicas e regulamentações governamentais para chegar até lá.

  • Colaboração: as empresas podem aprender umas com as outras e colaborar entre si nas áreas em que seus planos coincidirem.

Tradicionalmente, até aqui as empresas forneciam apenas valores numéricos em relação ao quanto pretendiam reduzir suas emissões. Agora, sabemos que metas sem uma estratégia definida têm menos chances de serem implementadas. Como o WWF afirma em seu relatório Turning Blue Chips Green, “metas especulativas estabelecidas com muitos anos de antecedência oferecem pouca orientação ou garantias de que serão cumpridas. (...) Planos de ação garantem a sustentação de metas de alto nível para reduzir emissões e embasam sua implementação”.

E é possível fazer isso acontecer. Um exemplo em vigor: o banco francês La Banque Postale combinou suas metas de redução de emissões com uma política ambiciosa para eliminar gradualmente o uso de combustíveis fósseis. A política foi avaliada de forma independente pela Reclaim Finance e considerada a melhor prática global para restringir o apoio financeiro à indústria de petróleo e gás.

A maneira como os planos corporativos de ação climática são apresentados hoje é inadequada

O primeiro problema é que poucas empresas de fato possuem planos de transição climática.

A divulgação do Plano de Transição Climática da CDP mostra que apenas 33% de 13.100 empresas reportaram o desenvolvimento de um plano de transição para a economia de baixo carbono em 2021. E, entre essas, menos de 1% forneceram informações nos 24 indicadores recomendados pela CDP.

Esses resultados são profundamente preocupantes – principalmente se considerarmos que 1) não existe uma confirmação de que as empresas de fato possuem os planos que alegam ter desenvolvido e 2) se os planos existem, não sabemos se são confiáveis ou qual a probabilidade de atingirem as metas estipuladas pelas empresas.

Tornando os planos de transição climática um termômetro da ação climática das empresas

São necessários quatro passos para fazer com que os planos corporativos de transição climática se tornem uma prática comum:

  1. É preciso tornar inaceitável que ONGs, investidores e clientes trabalhem com empresas que não planejem estabelecer metas baseadas na ciência.
  2. As empresas que estabeleceram suas metas precisam definir novos indicadores divulgando ao público seus planos para atingi-las.
  3. Na posição de uma terceira parte neutra, as ONGs (ou uma entidade privada) devem avaliar esses planos e fornecer pesquisas, ferramentas e orientação para suprir quaisquer lacunas nas estratégias das empresas para atingirem suas metas de redução de emissões.
  4. As fundações, por sua vez, devem oferecer o suporte financeiro necessário para as ONGs que fazem esse trabalho.

É hora de fazer com que os planos de transição climática se tornem uma referência entre os indicadores da ambição e da ação climática no meio corporativo. Apenas estabelecer uma meta de redução de emissões não é suficiente. As empresas precisam dar mais um passo e chegar ao próximo nível de transparência na ação climática corporativa.


Este artigo foi publicado originalmente no Insights.

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