Você está aqui

Na Amazônia, entender a paisagem social ajuda a transformar queimadas em agrofloresta

Na propriedade de Marliane das Chagas Soares, no interior da Amazônia, a sua família serve uma mesa com dez pratos diferentes. São diversos tipos de bolos, beijus, sequilhos e tapiocas. Todos deliciosos. E todos feitos da mesma matéria-prima, a mandioca. Essas delícias passaram por um processo árduo de trabalho para chegar até a mesa, desde o trabalho na terra, a colheita, transformação em farinha, em tapioca e em bolos. Trabalho feito com esmero pela família. Mas em uma terça-feira no começo de 2019, a Casa de Farinha dos Chagas Soares não processou mandioca. Em vez disso, esteve aberta para receber gente de fora, pessoas interessadas em conhecer um processo inovador que está se passando na propriedade dessa e de outras 21 famílias em Juruti, no Pará. No município de cerca de 50 mil habitantes, um trabalho do WRI Brasil está ajudando comunidades a produzir de forma sustentável, diversificando os produtos para garantir a segurança alimentar, e investindo em agrofloresta, que gera retornos financeiros e ecológicos ao mesmo tempo.

Juruti é uma cidade à beira do rio Amazonas que cresceu bastante na última década por conta da mineração de bauxita. O crescimento populacional e econômico, porém, ainda não estimulou um grande desenvolvimento no meio rural. Autoridades municipais estimam que a maior parte das frutas consumidas no município precisa vir de fora. Mesmo produtos amazônicos conhecidos, como o açaí e o cupuaçu, quase não são comercializados localmente.

Além disso, a maioria da população rural da região utiliza o fogo na preparação das áreas, a chamada coivara. A coivara é uma técnica tradicional de plantio. Primeiro, o produtor abre uma área de floresta e queima todo o material derrubado. Essa área é usada para produzir mandioca por dois ou três anos. Depois, ela é abandonada, e o produtor abre uma nova área. Antigamente, o produtor levaria de 20 a 30 anos para retornar à primeira área produzida, que já teria se recuperado da queima e estaria com floresta. Mas atualmente eles retornam em pouco mais de dois anos. O resultado é que os sucessivos processos de queima vão empobrecendo o solo, fazendo com que as lavouras sejam menos produtivas. Além disso, com as mudanças climáticas modificando a dinâmica de chuvas na região, o fogo muitas vezes se alastra por outras áreas de florestas. Ou seja, uma prática que já fez sentido no passado hoje precisa ser aprimorada.

<p>Imagem aérea da floresta amazônica em Juruti (PA). No centro da imagem, é possível ver um quadrado com floresta queimada, a coivara. (Foto: Joana Oliveira/WRI Brasil)</p>

Imagem aérea da floresta amazônica em Juruti (PA). No centro da imagem, é possível ver um quadrado com floresta queimada, a coivara. (Foto: Joana Oliveira/WRI Brasil)

É para mudar essa situação que a família de Marliane implantou, neste começo de 2019, uma unidade demonstrativa de agrofloresta. No mesmo hectare em que antes só se plantava mandioca, agora há espaço para uma produção que mistura lavoura e floresta. Foram plantadas árvores nativas, como paricá, cumaru e até o pau-rosa (uma espécie importante para a produção de essências e perfumes), e frutíferas, como açaí, cupuaçu, e mesmo banana ou acerola. Uma área que antes produzia apenas mandioca por dois anos agora terá a produção diversificada por 30 anos. E sem queimar a floresta.

O caso é um exemplo de restauração florestal e produtiva que pode servir de modelo para implantação de outras unidades, dando escala à restauração florestal no Brasil – algo necessário se o país espera cumprir sua meta de restaurar 12 milhões de hectares de florestas e combater as mudanças climáticas. Não seria possível chegar a esse exemplo modelo, porém, sem antes fazer um importante trabalho de mapeamento. Não só da floresta e da região, mas também um mapeamento social.

Mapeando as paisagens sociais

Um bom projeto de restauração florestal precisa se preocupar em conhecer a paisagem que será restaurada. É preciso saber como é o solo, quais as espécies existentes ou possíveis de sobreviver no local, qual o melhor plantio. Só que essas paisagens não existem no vácuo: não podemos esquecer que há pessoas lá também. Comunidades, empresas, órgãos do governo e indivíduos que tomam as decisões. Entender como todos esses atores se relacionam, quais são suas necessidades e principais motivações é fator crucial para que um projeto de restauração possa ter sucesso e ganhar escala.

Uma publicação do World Resources Institute, traduzida ao português e publicada pelo WRI Brasil em janeiro de 2019, apresenta um guia para entender esse contexto humano nas paisagens. A publicação Mapeamento de paisagens sociais: um guia para identificar redes, prioridades e valores dos atores da restauração traz para o mundo da restauração técnicas já usadas em outros setores, como saúde e segurança, para entender como as pessoas se organizam em determinadas regiões. “Enfatizando o entendimento prévio da paisagem social e mensurando os avanços, os realizadores de restauração podem ser mais eficientes no uso de recursos, melhorar a colaboração e o alcance, e prever conflitos e gargalos”, diz o texto.

Segundo Mariana Oliveira, analista de pesquisas do WRI Brasil e uma das responsáveis pelo projeto em Juruti, o guia ajuda a sistematizar informações muitas vezes abstratas, como a rede de relacionamentos de pessoas interessadas em restaurar. “O guia apresenta ferramentas para levantar, sistematizar e analisar informações importantes que não estão disponíveis em forma de dados, como por exemplo quais temas a comunidade prioriza ou qual a melhor forma de se comunicar com aquele grupo”, diz.

O guia oferece duas abordagens diferentes para entender o contexto de uma paisagem social. Uma delas é o “Mapeamento de Conectividade”, que mostra como os atores de uma determinada paisagem se relacionam. Essa metodologia possibilita planejar a melhor forma de dialogar com a comunidade, compreendendo quais são os potenciais conflitos e possibilidades de diálogo. A outra abordagem é a do “Mapeamento de Prioridades e Valores”, que permite identificar metas comuns, tradições e práticas utilizadas pelas pessoas que vivem numa região.

Esse tipo de mapeamento já foi aplicado em comunidades de vários países, como México, Índia, Indonésia, entre outros. No Brasil, foi uma ferramenta importante para entender o fluxo de informação sobre restauração dentro da paisagem social de uma das comunidades rurais em Juruti e, assim, aumentar as chances de sucesso da restauração. Em Juruti, a metodologia apresentou duas descobertas importantes. A primeira revelou que o acesso das mulheres à informação era extremamente limitado no campo, restringindo seu poder de decisão sobre atividades produtivas e reforçando a desigualdade de gênero. A segunda mostrou que há uma limitação gerada pelo baixo acesso a tecnologias na comunidade. Esses dois gargalos poderiam comprometer o sucesso de um projeto de restauração.

<p>Reprodução da visualização gráfica de um mapeamento de atores sociais feito na comunidade da Galileia, em Juruti (PA). Retirado da publicação *“Mapeamento de paisagens sociais: um guia para identificar redes, prioridades e valores dos atores da restauração”* (Foto: Reprodução/WRI Brasil)</p>

Reprodução da visualização gráfica de um mapeamento de atores sociais feito na comunidade da Galileia, em Juruti (PA). Retirado da publicação “Mapeamento de paisagens sociais: um guia para identificar redes, prioridades e valores dos atores da restauração” (Foto: Reprodução/WRI Brasil)

Mulheres protagonistas

O diagnóstico da desigualdade de gênero no acesso à informação sobre restauração foi um fator fundamental no planejamento, mobilização e capacitação das comunidades sobre sistemas agroflorestais em Juruti. As mulheres das comunidades se engajaram e ajudaram a criar um movimento pela restauração local. Um grande exemplo disso foi dado por Fátima de Melo Lira, produtora rural, presidente do sindicato dos trabalhadores rurais da região e líder de uma das unidades demonstrativas do projeto.

Fátima implantou um sistema que mistura pecuária com floresta, objetivando a melhoria da qualidade do solo e do pasto dos animais e ao mesmo tempo produzindo espécies frutíferas. Em uma posição de articulação na comunidade, ela quer provar que é possível espalhar esse modelo de pecuária sustentável. “Meu objetivo é mostrar para as pessoas que dá pra produzir sem desmatar. Queremos levar esse trabalho para outros agricultores”, diz.

Também são as mulheres que estão na linha de frente do problema da tecnologia encontrado no diagnóstico. Na família de Marliane, descrita no começo deste texto, as mulheres têm papel importante em trazer o componente da inovação para a propriedade. Trabalhando junto com o pai, Messias Soares, e mais seis membros da família, Marliane buscou novas técnicas de produção e aprendeu como produzir agrofloresta no solo amazônico. “Nós já queríamos produzir com mais sustentabilidade”, diz Marliane. “O projeto veio para ajudar a nossa família”.

<p>A produtora rural Fátima de Melo Lira (Foto: Joana Oliveira/WRI Brasil)</p>

A produtora rural Fátima de Melo Lira (Foto: Joana Oliveira/WRI Brasil)

<p>A produtora rural Marliane das Chagas Soares e marido (Foto: Joana Oliveira/WRI Brasil) </p>

A produtora rural Marliane das Chagas Soares e marido (Foto: Joana Oliveira/WRI Brasil)

Florestas produtivas

Com as mulheres na linha de frente, o projeto Restauração Compatível com Igualdade de Gênero e a Mudança de Clima, desenvolvido pelo WRI Brasil e pela empresa de agrofloresta Preta Terra, com apoio da Alcoa Foundation, implantou 22 unidades demonstrativas com sistemas agroflorestais, somando 10 hectares. Dessas, 14 são lideradas por mulheres, entre elas Fátima e Marliane.

São sistemas que permitem que o produtor continue produzindo mandioca – ou outra cultura de sua preferência, incluindo o pasto para criação de gado – e ao mesmo tempo inclui no sistema árvores frutíferas, como cupuaçu, acerola e açaí, espécies de valor pela madeira, como o cumaru, pau-rosa e o cedro, além de outras plantas que têm como objetivo melhorar a qualidade do solo.

Para atingir sucesso na mobilização e implantação das unidades demonstrativas, foi crucial identificar a necessidade de inclusão das mulheres nos processos de restauração através da metodologia de mapeamento da paisagem social. A família de Marliane, por exemplo, quer continuar produzindo mandioca – e fazer seus deliciosos bolos e doces já tradicionais. A agrofloresta entra para diversificar a alimentação da casa. Quem sabe no futuro, além dos produtos tradicionais da mandioca, a mesa da família não terá também açaí, cupuaçu e toda a diversidade de uma produção na floresta amazônica?

<p>Mudas de árvores nativas da Amazônia (Foto: Joana Oliveira/WRI Brasil) </p>

Mudas de árvores nativas da Amazônia (Foto: Joana Oliveira/WRI Brasil)

ShareThis Button: 

Share

Comentar

Fique Conectado

Receba Nossa Newsletter

Receba os últimos comentários, eventos, publicações e recursos multimídia.