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Ruas completas: em Porto Alegre, as duas faces de uma rua

A Rua João Alfredo, no boêmio bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, tem duas faces. Durante o dia, a vida dos moradores se revela no trânsito de pais e filhos a caminho das quatro escolas de seu entorno, na oferta de serviços e de comércio que vai do conserto de bicicletas a ferragens e cabeleireiros. À noite, surge a intensa circulação de pessoas em busca de diversão nos bares e casas noturnas concentrados em dois quarteirões considerados um dos epicentros da noite porto-alegrense.

A capital gaúcha discute diferentes ideias de desenho urbano que podem qualificar a experiência dos moradores diante de tal dualidade. A João Alfredo precisa de vida durante o dia, quando muitos dos estabelecimentos estão fechados, e de organização e segurança à noite, quando suas calçadas são tomadas pela vida noturna. Porto Alegre faz parte da Rede Nacional para a Mobilidade de Baixo Carbono, projeto fruto da parceria entre WRI Brasil e Frente Nacional de Prefeitos (FNP), com apoio do Instituto Clima e Sociedade (ICS), e começa a trabalhar para transformar esse eixo da Cidade Baixa em uma rua completa.

A Rua João Alfredo remonta a Lupicínio Rodrigues, ao samba e ao carnaval, à história cultural da cidade. Seu casario colorido é uma herança desse tempo. Do ponto de vista de mobilidade, é uma via coletora, com limite de velocidade entre 30 km/h e 40 km/h, por onde passam uma linha de ônibus e uma de lotação (transporte coletivo por micro-ônibus). No entanto, de acordo com dados da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), a velocidade média é de 44 km/h. Segundo o diagnóstico apresentado pela arquiteta Ana Paula Bonini e pelo engenheiro Marcos Feder, da prefeitura de Porto Alegre, durante o workshop de ruas completas realizado na última terça-feira (06/09), a largura da via, associada à pouca sinalização viária, induz a esse desrespeito da velocidade no período diurno.

À noite, a situação praticamente se inverte. São tantos pedestres concentrados em calçadas estreitas que, em algumas ocasiões, os carros mal conseguem circular, pois as pessoas ocupam o espaço viário. O risco aumenta pela escassez de faixas de segurança e locais para travessias seguras. “Mais da metade dos atropelamentos ocorrem à noite”, explicou Ana Paula, destacando o cruzamento com a Rua da República como ponto de maior número de ocorrências. Cláudia Santos, comerciante de 42 anos e moradora da João Alfredo, percebe a necessidade de mudanças quando sai de casa à noite. “Muitas vezes precisamos andar pela rua devido à aglomeração”, conta.

<p>Multidão de pessoas à noite na rua João Alfredo, em Porto Alegre (Foto: Joel Vargas/PMPA)</p>

Rua João Alfredo durante o carnaval de 2017 (Foto: Joel Vargas/PMPA)

O transporte ativo destaca-se na divisão modal do bairro Cidade Baixa. Pesquisa de origem e destino realizada em 2003 demonstrou que apenas pouco mais de 20% das viagens originadas no bairro são realizadas por veículo motorizado individual, enquanto o resto divide-se entre o transporte ativo e coletivo. Embora não existam dados mais atualizados, técnicos da prefeitura da cidade acreditam que a preferência por ônibus e lotação, caminhada e bicicleta pode inclusive ter aumentado nos últimos anos. Na João Alfredo, principalmente à noite, o número de bicicletas presas a postes e estacionadas no leito viário é grande.

Uma tarde para pensar o futuro da João Alfredo

Buscar um desenho urbano capaz de atender às duas faces da rua – a diurna e a noturna – é um desafio e tanto para os projetistas. Por isso, o WRI Brasil reuniu técnicos das diversas secretarias envolvidas e de outras dez cidades gaúchas para um dia de atividades. Foram debatidas soluções possíveis para transformar a João Alfredo em uma referência de espaço urbano equilibrado, que sirva de inspiração para outros municípios adotarem iniciativas parecidas.

Há um diagnóstico da prefeitura de Porto Alegre de que a movimentação no período noturno tem causado transtornos, o que gerou conflitos com moradores e uma recente recomendação do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul para que o prefeito interviesse. O desenho urbano, a partir dos conceitos de ruas completas, pode ser o primeiro passo para lidar com a questão.

“Dentro desse projeto (Ruas Completas) buscamos mudar o paradigma do último século baseado no desenho de cidades para os veículos. A partir da transformação de uma rua em cada cidade da Rede Nacional para a Mobilidade de Baixo Carbono, esperamos inspirar os municípios participantes e os vizinhos a mudar essa realidade. Todas as cidades nos trouxeram grandes desafios e estamos dispostos a ajudar com as melhores soluções disponíveis no mundo. Essa troca de experiências é uma das principais riquezas da iniciativa”, explica Paula Santos, coordenadora de Mobilidade Ativa do WRI Brasil.

<p>Atividade prática durante o workshop de Ruas Completas realizado em Porto Alegre (fotos: Daniel Hunter/WRI Brasil)</p>

Atividade prática durante o workshop de Ruas Completas realizado em Porto Alegre (fotos: Daniel Hunter/WRI Brasil)

Os técnicos da prefeitura de Porto Alegre e de Santo Antônio da Patrulha, São Gabriel, Canoas, São Leopoldo, Bento Gonçalves, Cachoeirinha, Tramandaí, Novo Hamburgo, Triunfo e São Jerônimo debateram possíveis soluções de desenho urbano a serem incorporadas no projeto em desenvolvimento na capital gaúcha para tornar a João Alfredo uma rua completa. Após serem divididos em grupos, eles levantaram propostas como alargamento das calçadas, reforço na sinalização, redução do limite de velocidade para 30 km/h, nova infraestrutura como elevação da via e diversos tipos de travessias seguras, inclusão de mobiliário urbano, vegetação e instalação de paraciclos. Contagens volumétricas de veículos e bicicletas realizadas neste ano indicaram um fluxo cerca de cinco vezes maior no sentido bairro-centro, por isso alguns grupos também defenderam a implantação de sentido único na via.

Essas e outras ideias compartilhadas durante o workshop serão estudadas pelo corpo técnico da cidade como formas possíveis de reestruturação da João Alfredo. Há uma percepção inicial de que essa rua pode se tornar um exemplo de espaço urbano que harmoniza a convivência entre todos os usuários através das mensagens passadas pelo próprio ambiente. Mas este precisará ser um trabalho conjunto, com envolvimento de outras secretarias e, principalmente, da comunidade.

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