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O transporte ativo combate a falta de atividade física e melhora o bem-estar nas cidades

Diversas pesquisas mostram que os níveis de atividade física da população variam de acordo com o que a cidade permite ou incentiva em termos de deslocamentos. Uma análise realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) concluiu que uma das formas mais efetivas de estimular naturalmente a atividade física é através de políticas de transporte e planejamento urbano. Esforços e estratégias por cidades mais ativas serão cada vez mais necessários uma vez que a inatividade física já é um dos grandes problemas da saúde pública global.

Algumas características dos ambientes construídos – sejam bairros ou até cidades inteiras –, podem provocar alterações nas taxas de doenças crônicas e na saúde mental, além de maior ocorrência de fatores de risco como obesidade e hipertensão. O desenvolvimento econômico de países e o processo de urbanização vêm alterando as distâncias percorridas e os padrões de transporte da população. Em favor do uso de veículos motorizados, o desenho urbano das cidades passou a ser pensado menos para pessoas, que antes caminhavam e pedalavam com mais frequência, e mais para os automóveis.

Ao sair de casa, uma pessoa deve ter a possibilidade de optar por hábitos que contribuam naturalmente para sua saúde, mas para isso é urgente que ruas e espaços públicos sejam construídos para favorecer especialmente deslocamentos mais sadios.

Por 15 anos, o explorador e escritor Dan Buettner buscou os motivos pelos quais as pessoas tinham vidas mais duradouras e saudáveis em cinco cidades específicas – Okinawa, no Japão; Sardenha, na Itália; Nicoya, na Costa Rica; Ikaria, na Grécia; e Loma Linda, na Califórnia. O que ele descobriu foi que a longevidade dos habitantes era um resultado de condições comuns às cinco cidades, entre elas a forma como as pessoas mais de deslocam diariamente. Nesses locais, a população não costuma pagar para se manter ativa, frequentando academias, por exemplo, mas as atividades físicas ocorrem naturalmente como consequência de suas viagens diárias feitas a pé.

Para Dan Buetter, não adianta tentar convencer as pessoas a se exercitem, mas a resposta está em desenhar cidades para humanos. "Não podemos depender de mudanças de comportamento. Precisamos melhorar a saúde das comunidades ao promover mudanças permanentes ou semipermanentes em diversos níveis", diz. O programa Blue Zones, criado por ele, trata de melhorar ou otimizar ruas com melhores calçadas, ciclovias, espaços públicos, caminhos seguros para deslocamentos a pé para escolas, entre outras ações que promovem o transporte ativo.

A inatividade física exerce ainda influência direta nos custos com assistência médica da população, mas também indiretamente através de perdas econômicas por licenças médicas, por exemplo. Tornar os cidadãos mais ativos deve ser transformado em uma das principais metas de planejamento.

<p>pedestres atravessando a rua</p>

A adoção do transporte a pé vai depender da infraestrutura adequada (foto: Mariana Gil/WRI Brasil)

Investimentos e estratégia

Um estudo da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, concluiu que a cada US$ 1,3 mil investidos na construção de ciclovias em Nova York, em 2015, foram gerados benefícios equivalentes a um ano de vida saudável a mais na vida de todos os moradores da cidade. Naquele ano, a cidade construiu cerca de 73 quilômetros de ciclovias com um investimento de US$ 8 milhões. Segundo cálculos dos pesquisadores, isso aumentou em 9% a probabilidade dos habitantes usarem a bicicleta.

Políticas públicas desempenham um papel fundamental no incentivo à prática de atividade física. A cidade de Londres, por exemplo, incluiu na sua estratégia o programa "Healthy Streets" (Ruas Saudáveis) para estimular a população a caminhar, pedalar e usar o transporte coletivo em seus deslocamentos diários. Segundo levantamentos da capital inglesa, pelo menos um quarto das viagens que hoje são realizadas de carro poderiam ser feitas a pé e dois terços de bicicleta, o que garantiria grandes benefícios à saúde da população e eficiência para o sistema de transporte.

"A maneira mais fácil de a maioria dos londrinos continuarem ativos é usar o transporte a pé e de bicicleta nos seus deslocamentos diários. Dois períodos de 10 minutos de caminhada ou pedalada acelerada por dia é suficiente para atingir o nível de atividade física recomendado para evitar maiores riscos de saúde associados à inatividade", afirma o plano.

Se todos os moradores de Londres caminhassem ou pedalassem 20 minutos por dia, 1,7 bilhão de libras seriam economizadas em custos de tratamentos do NHS (sistema de saúde da Inglaterra) ao longo de 25 anos, de acordo com o planejamento da cidade. Além disso, estima-se que contribuiria para reduzir mais de 19 mil casos de demência, 18 mil casos de depressão, 16 mil casos de doenças cardiovasculares, 6 mil infartos, entre vários outros problemas de saúde.

No Brasil, os Planos de Mobilidade Urbana devem inserir estratégias que fortaleçam os modos ativos e mais sustentáveis de transporte. Joinville instituiu, em 2015, o seu Plano Diretor de Transportes Ativos (PDTA) para atender a duas ações prioritárias do seu Plano de Mobilidade (PlanMOB): elaborar um plano de caminhabilidade e um plano diretor cicloviário. O documento apresenta diretrizes de como qualificar e ampliar os deslocamentos a pé ou por bicicleta na cidade, tratando especialmente sobre as condições das calçadas e passeios, das vias cicláveis, travessias e sistema de informação para pedestres e ciclistas e infraestrutura verde do município catarinense.

As conexões entre planejamento urbano e saúde pública são diversas. Cidades terão um papel de grande importância para que essa relação permita que a própria população escolha hábitos mais saudáveis e ativos. Promover o transporte ativo depende da infraestrutura adequada e segura e do uso eficiente do solo, o que inclui promover densidades e centralidades. Ou seja, é uma abordagem holística de gestão urbana como meio de proporcionar qualidade de vida para as pessoas.

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