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Intervenções de urbanismo tático redesenham ruas de 3 capitais no Mês da Mobilidade

O Mês da Mobilidade é uma boa oportunidade para se tratar da importância do planejamento e do desenho urbano para a vida nas cidades. Melhor ainda quando a comunicação é incorporada em melhorias efetivas no espaço público, como fizeram São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre. As cidades do Sudeste promoveram intervenções de segurança para pedestres, ciclistas e pessoas com mobilidade reduzida. Já a capital gaúcha ganhou uma nova Rua Completa.

O que une as três iniciativas é a técnica urbanística empregada: o urbanismo tático. Quem frequenta o blog já deve ter lido sobre a abordagem, que promove a transformação de espaços urbanos por meio de intervenções rápidas e reversíveis. Tinta, tachões, bancos, parklets e outros equipamentos podem ser usados no redesenho e na qualificação das calçadas, vias de rolamento e do espaço público de forma mais ampla – seja em nome da segurança, do estímulo à mobilidade ativa, da vitalidade do comércio ou de uma mistura de tudo isso.

Em São Paulo, uma intervenção mirou ampliar, principalmente, a segurança dos pedestres na interseção da rua Guatapará com a avenida Engenheiro Armando de Arruda Pereira, próximo à estação Conceição do metrô – considerado um dos pontos mais críticos de segurança viária na cidade, devido ao alto número de fatalidades, atropelamentos e feridos graves nos últimos anos. Foi a primeira de uma série de ações focadas em segurança em travessias que serão implementadas na capital paulista até o fim de 2020.

Com pintura do solo e dispositivos auxiliares de segurança, como tachas e tachões, implementou-se uma nova travessia seguindo uma linha de desejo – um local onde pedestres atravessavam porém não havia faixa de segurança próxima. Calçadas foram estendidas para aumentar a segurança nas travessias existentes e melhorar a visibilidade entre usuários. As extensões reduzem o raio de curvatura de esquinas (de modo que a própria infraestrutura garanta a redução de velocidade dos motoristas nas conversões) e diminuem a distância das travessias. Segundo o guia O Desenho de Cidades Seguras, cada metro a menos de travessia significa 6% a menos no risco de atropelamento naquele local.

A intervenção da Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes no entorno da estação Conceição visa impactar imediatamente na segurança viária de todos os usuários do local e tem objetivo de engajar e comunicar a população sobre a importância de agir para salvar vidas no trânsito. A ação teve apoio da Iniciativa Bloomberg para Segurança Global no Trânsito e do WRI Brasil. “Essa região foi escolhida para este primeiro piloto por ser uma das mais críticas, dado o alto movimento de pedestres, ciclistas e motociclistas em virtude da concentração de terminal de ônibus, metrô e grandes centros empresariais”, explica Diogo Dias Lemos, Analista de Segurança Viária do WRI Brasil.

A avenida Engenheiro Armando de Arruda Pereira é uma das campeãs de acidentes na cidade: foram 46 ocorrências em 2018, com 56 vítimas, sendo duas fatais. O trecho que se estende da Rua Guatapará à avenida Eng. George Corbisier é um dos pontos críticos identificados em estudo do WRI Brasil e Instituto Cordial, que embasou o Vida Segura, plano de segurança viária da cidade.

Até o fim de 2020, a intervenção de urbanismo tático deve dar lugar a intervenções definitivas que se estenderão ao longo da avenida Eng. Armando de Arruda Pereira. Além desta, outras 19 intervenções com construção civil estão previstas para o biênio 2019-2020, ações prioritárias do Vida Segura para reduzir o número de vítimas fatais no trânsito, de 6,56 mortes por 100 mil habitantes em 2017 para 3 mortes por 100 mil habitantes em 2030. “A estratégia é fazer as intervenções em cada ponto junto com a implantação da infraestrutura cicloviária”, explica Luan Ferraz Chaves, analista de políticas públicas e gestão governamental da Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes (SMT) de São Paulo.

Escola é lugar de se sentir seguro

No entorno da Escola Municipal Anne Frank, no bairro Confisco, em Belo Horizonte, elementos conflitantes conviviam diariamente. Carros percorriam um trecho em declive antes de passarem em frente à escola, frequentemente em velocidade inadequada, colocando em risco pedestres, incluindo crianças e adolescentes – 90% dos alunos chegam e saem da escola a pé.

Para garantir a segurança de pedestres, ciclistas e pessoas com mobilidade reduzida, a prefeitura promoveu uma intervenção de urbanismo tático com envolvimento da comunidade escolar. A Intervenção Temporária de Zona 30 Confisco limitou a 30km/h a velocidade para veículos nas vias locais. Em duas ruas do quarteirão em que está a escola, pinturas na via formam chicanas para induzir a redução de velocidade dos automóveis que transitam por ali.

A iniciativa capitaneada pela Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da BHTrans, integrou o mês da mobilidade na capital mineira, que incluiu outras atividades para ampliar a reflexão sobre mobilidade e questões ambientais. A intervenção é a segunda Zona 30 implementada no entorno de escolas – a primeira intervenção ocorreu em abril, no bairro Cachoeirinha.

Porto Alegre ganha uma rua mais completa

O urbanismo tático se presta a outras finalidades além da segurança viária. É o caso da boêmia Rua João Alfredo: a nova Rua Completa da capital gaúcha passou por intervenções que remodelaram o espaço urbano para incentivar a mobilidade ativa e atividades durante o dia.

A João Alfredo era uma rua de dualidades. Durante o dia, carros trafegavam em velocidade incompatível com as características locais, e havia pouco movimento de pedestres na rua de calçadas estreitas, poucas travessias seguras e baixa atividade comercial. À noite, mais de uma dezena de bares atraíam movimento intenso de frequentadores, o que resultava em conflitos com moradores, além de expor ao risco de acidentes os jovens que lotavam as calçadas e ocupavam a via de rolamento.

Em março, uma primeira etapa havia ampliado o espaço de circulação dos pedestres e criou novos pontos de travessia, ilhas de refúgio e uma nova rótula em um cruzamento. No início de setembro, a prefeitura finalizou a intervenção, incluindo extensão de calçadas e novas travessias. Parte do espaço de estacionamento foi convertido em área para pedestres – a extensão das calçadas foi sinalizada em pintura verde, tachões e balizadores. Placas de sinalização indicam que aquela é agora uma Zona 30 (com velocidade limitada em 30km/h), o que a prefeitura espera que contribua para a segurança.

O próximo passo será adicionar mobiliário urbano para reforçar a segurança, incluindo bancos em material resistente a chuva nas extensões de calçada. Segundo a Prefeitura de Porto Alegre, o conceito de Ruas Completas será aplicado em outras regiões, como Centro Histórico, Quarto Distrito e Restinga.

Além da rápida execução, o urbanismo tático permite avaliar resultados em pouco tempo e realizar melhorias e ajustes no projeto ao longo do período de implantação.

– Pode-se medir indicadores de acordo com os objetivos das intervenções. Em São Paulo, vamos verificar se reduziu o número de atropelamentos. Em Porto Alegre, se aumentou o número de estabelecimentos com atividades diurnas, por exemplo – explica Paula Santos, gerente de Mobilidade Ativa do WRI Brasil.

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