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A ciência mostra as vantagens da agrofloresta e dos plantios mistos para a restauração

Na última semana, entre 30 de setembro e 4 de outubro, especialistas do mundo inteiro se reuniram em Curitiba, Paraná, para o maior encontro da ciência florestal do mundo. Trata-se do Congresso da Iufro, a União Internacional das Organizações de Pesquisa Florestal (International Union of Forest Research Organizations), que acontece a cada cinco anos e pela primeira vez foi realizado no Brasil. O próximo, previsto para 2024, será em Estocolmo, Suécia.

No Congresso deste ano, dois temas se sobressaíram em meio aos debates técnicos, científicos e políticos feitos pelos pesquisadores. Um deles foi o da agrofloresta, a técnica de integrar intencionalmente as árvores em meio a lavouras ou pasto. Cientistas de várias partes do mundo apresentaram modelos diferentes e interessantes de Sistemas Agroflorestais (SAFs), mostrando que florestas e lavouras podem conviver harmonicamente.

Outro tema de destaque foi o do plantio misto – a ideia de usar mais de uma espécie numa plantação de silvicultura. Uma técnica que pode melhorar a produtividade das florestas plantadas e resultar em plantações para fins econômicos que tenham mais biodiversidade.

Agrofloresta no mundo todo

O aumento do interesse de cientistas por pesquisas sobre sistemas agroflorestais vem em um momento em que a agrofloresta está em evidência. Em agosto, por exemplo, estudo do painel de cientistas que avaliam os impactos das mudanças do clima, o IPCC, identificou o plantio em sistemas agroflorestais como uma das medidas mais interessantes para adaptação climática.

Na edição deste ano da Iufro, diversos pesquisadores apresentaram modelos diferentes e inovadores de SAFs. Chama a atenção o fato de haver experiências em locais muito diferentes do mundo: além do Brasil, foram relatadas pesquisas em países africanos, assim como Austrália, Colômbia e Costa Rica. Também chama atenção as vantagens e benefícios relatados pelos pesquisadores.

A pesquisadora americana Susan Stein, da agência de agrofloresta dos Estados Unidos, um órgão do Departamento de Agricultura, apresentou um estudo em que identificou mais de 30 mil agricultores produzindo em sistemas agroflorestais nos EUA. A pesquisa dela mostra que os SAFs estão gerando importantes benefícios para esses produtores, como qualidade da água, sequestro de carbono, aumento da biodiversidade e conservação do solo.

Os Sistemas Agroflorestais também mostram vantagem econômica em diferentes paisagens do mundo. Um trabalho do pesquisador Alvaro Sotomayor, do Instituto Forestal, do Chile, identificou que, na Patagônia chilena, sistemas agroflorestais desenvolvidos para que as árvores reduzam o impacto do vento na produção de grãos fez com que a produção aumentasse em até 40%. Somado a produtos não-madeireiros que as árvores fornecem, como frutas e castanhas, esses SAFs podem aumentar a produção agrícola e complementar a renda do produtor.

Também foram apresentados diversos modelos de agrofloresta no Brasil. O WRI Brasil, representado no Congresso pelos pesquisadores do programa de Florestas, trouxe para a comunidade de cientistas florestais a experiência que vem sendo desenvolvida em Juruti, no Pará. Nessa comunidade, famílias plantam árvores em um sistema em consórcio com a mandioca, principal sustento da região. A agrofloresta em Juruti ajuda a diminuir o uso do fogo na agricultura amazônica e ainda amplia a segurança alimentar e nutricional das comunidades atingidas.

Plantios mistos

Outro ponto que está atraindo interesses dos pesquisadores da área de florestas é o do plantio misto. Atualmente, o tipo mais comum de reflorestamento para a silvicultura é a monocultura. Novas pesquisas estão mostrando que introduzir mais espécies num plantio de reflorestamento para madeira, por exemplo, pode fazer sentido tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental.

O projeto VERENA, do WRI Brasil, busca pesquisar e analisar a viabilidade econômica e ambiental da restauração. Um dos pontos identificados pelo projeto é que o plantio misto de espécies possui vários benefícios – além de aumentar a biodiversidade, espécies diferentes tem tempos de crescimento diferentes, permitindo que o produtor colha e obtenha renda em curto, médio e longo prazo.

Ainda há muitas lacunas de conhecimento científico sobre os plantios mistos – especialmente quando estamos falando de espécies nativas brasileiras. Durante a Iufro, o WRI Brasil aproveitou a importante discussão sobre plantios mistos e lançou o estudo Research Gaps and Priorities in Silviculture of Native Species in Brazil. O trabalho aponta a necessidade de se investir em pesquisa & desenvolvimento para espécies nativas como forma de impulsionar a silvicultura e ajudar o Brasil a atingir a meta de restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030.

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