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Emissões de CO2 chegam a novo recorde em 2019: 6 fatos sobre os últimos dados climáticos

Este post foi publicado originalmente no WRI Insights.


As emissões globais de dióxido de carbono a partir da queima de combustíveis fósseis estão a caminho de chegar a um novo recorde em 2019, de acordo com um relatório recente do Global Carbon Project, colocando o mundo em risco de mudanças climáticas catastróficas. Essa é mais uma evidência de que o platô no crescimento das emissões entre 2014 e 2016 teve vida curta: as emissões de combustíveis fósseis cresceram 1,5% em 2017, 2,1% em 2018 e projeta-se crescimento de 0,6% em 2019. Esse crescimento vai na direção oposta dos cortes profundos e necessários para responder à emergência climática.

A novidade alarmante foi divulgada justamente quando quase 200 países se reúnem em Madri, na Espanha, para finalizar as regras do Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas e se preparar para aprimorar seus compromissos nacionais sobre o clima em 2020.

Leia abaixo análise de seis fatos relevantes presentes no relatório:

1. Mais um ano de aumento de emissões

Pela primeira vez, as emissões de carbono provenientes de combustíveis fósseis atingiram 10 gigatoneladas por ano em 2018 (ou pouco menos de 37 gigatoneladas de dióxido de carbono), mais que o dobro do nível na década de 1970.

Mesmo nos países desenvolvidos onde as emissões já atingiram o pico, as emissões de dióxido de carbono não estão caindo com rapidez suficiente para compensar o aumento das emissões em outros lugares. A previsão é que as emissões em 2019 diminuam 1,7% na União Europeia e nos Estados Unidos, mas aumentem 1,8% Índia (consideravelmente menos do que a taxa de crescimento dos últimos cinco anos, de 5,1%), 2,6% na China e 0,5% no resto do mundo.

A taxa global de emissões per capita foi de 4,8 toneladas de dióxido de carbono no ano passado. Esse número foi consideravelmente maior na Austrália (16,9 toneladas por pessoa), Estados Unidos (16,6), China (7,0 toneladas por pessoa) e UE (6,7). Importante notar que a taxa de emissões de dióxido de carbono per capita da China agora é maior que a da UE (embora historicamente não tenha sido assim), enquanto a taxa na Índia (2 toneladas por pessoa) é cerca de um oitavo da dos EUA.

2. A terra e os oceanos estão absorvendo mais dióxido de carbono

A terra e os oceanos – ambos sumidouros de carbono – continuam a absorver dióxido de carbono a uma taxa que acompanha o aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera, compensando parcialmente o crescimento das emissões. Os oceanos consumiram 2,5 gigatoneladas por ano na última década, mais do que o dobro do que na década de 1960. As terras consumiram 3,2 gigatoneladas por ano na última década, mais de 1,5 vezes a taxa na década de 1970.

Mas nossos sumidouros oceânicos e terrestres podem ser comprometidos pelo aquecimento no futuro, o que pode limitar a quantidade de dióxido de carbono que eles absorvem, fazendo com que as temperaturas globais subam ainda mais rápido do que agora.

3. O carvão está claramente em declínio, mas ainda domina as emissões

O carvão é a maior fonte de emissões de dióxido de carbono dentre os combustíveis fósseis, representando 42% do total global. À medida que as fontes de energia renováveis ou de baixa emissão se tornam mais competitivas economicamente e mais países se afastam do carvão devido ao seu impacto no clima e na saúde, mais evidentes ficam os sinais de que o carvão está em declínio. Prevê-se que a geração de carvão nos EUA em 2019 caia 11% em relação a 2018, nível que não é testemunhado há mais de 50 anos – cerca de metade do seu pico em 2005. Na Europa, as emissões geradas a partir do carvão caíram 10% em 2019. No Reino Unido, a queda foi de 42% em 2012 para apenas 5% da geração de eletricidade em 2018.

4. Gás natural, o combustível fóssil que mais cresce, nem sempre substitui o carvão

Globalmente, o uso de gás natural aumentou em média 2,6% ao ano nos últimos cinco anos e as emissões relativas ao seu uso são projetadas para aumentar em 2,5% em 2019. Mesmo com esse rápido crescimento, o gás natural contribui com cerca de metade das emissões geradas por carvão.

Antes dependentes de gasodutos para transporte, os mercados de gás natural estão se tornando mais globais à medida que cresce o mercado de gás natural liquefeito (GNL) – o comércio de GNL aumentou 10% apenas em 2018. Isso está reduzindo as diferenças regionais de preços e impulsionando a demanda onde os preços estão caindo, principalmente na Ásia.

Embora o gás natural seja por vezes considerado um combustível de transição entre o carvão e energias renováveis, por emitir cerca de metade do dióxido de carbono do carvão, os investimentos que estão sendo feitos agora em infraestrutura de gás natural potencializarão seu uso nas próximas décadas, atrasando a transição para fontes de baixo carbono. Em 2019, por exemplo, a comissão federal de regulação de energia dos EUA aprovou 11 projetos de exportação de GNL.

O mais crítico a se observar é se o gás natural está substituindo ou se somando ao uso de carvão. Até agora, a substituição parece estar acontecendo em alguns mercados importantes, como os Estados Unidos, mas não em outros, como o Japão, que está adotando em função da perda de energia nuclear.

5. O petróleo está em ascensão, impulsionado pela crescente demanda por transporte

Assim como no caso do gás natural, o uso de petróleo também continua a aumentar globalmente, a uma média de 1,9% ao ano na última década, representando pouco mais de um terço das emissões globais de combustíveis fósseis. Cerca de metade do petróleo é usada no transporte terrestre, e a demanda está aumentando nos países em desenvolvimento e em muitos países desenvolvidos. Nos Estados Unidos, já existe quase um veículo por pessoa, enquanto em muitos mercados em desenvolvimento essa proporção é muito menor, com um veículo para cada seis pessoas na China e um para cada 40 pessoas na Índia. Projeções de aumento da propriedade de veículos particulares na China, Índia e outros mercados em desenvolvimento sugerem que a demanda por petróleo continuará a crescer nos próximos anos.

A aviação, embora represente apenas 8% das emissões do uso global de petróleo, também tem demanda crescente. O número de viagens de passageiros por avião aumentou em média 7% ao ano de 2013 a 2018 e mostra potencial para continuar, especialmente nos países em desenvolvimento onde o uso per capita das viagens aéreas permanece comparativamente baixo.

6. Soluções existem

Várias abordagens podem ser usadas para descarbonizar economias, como a substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis e a definição de padrões melhores de eficiência de combustível. Como pelo menos 18 países já mostraram, os níveis nacionais de emissões podem cair mesmo com as economias crescendo. É preciso que mais países se comprometam a fazer isso, transformando suas economias rapidamente para um modelo de baixo carbono.

A oportunidade da COP25

A COP25, que ocorre em Madri neste mês, oferece uma oportunidade importante para os países sinalizarem que aumentarão a ambição de seus compromissos nacionais sobre o clima, conhecidos como contribuições nacionalmente determinadas ou NDCs. Até o momento, 68 países já sinalizaram que vão melhorar suas NDCs em 2020, mas eles representam apenas 8% das emissões globais. Os principais emissores precisam dar um passo à frente e liderar o resto do mundo.

Embora o relatório deste ano indique uma taxa de crescimento menor das emissões do que nos últimos anos, mesmo um crescimento zero de emissões não é suficiente. Além do aumento das emissões nos últimos anos, estimativas preliminares dos dados para 2020 sugerem que as emissões continuarão a aumentar no próximo ano. Precisamos virar rapidamente a curva de emissões para baixo para ter alguma esperança de estar no caminho para um mundo bem abaixo de 2ºC e, idealmente, apenas 1,5ºC mais quente do que o período pré-Revolução Industrial. Sendo realistas, somente com um crescimento negativo das emissões podemos ter esperança de evitar os impactos mais graves das mudanças climáticas.

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