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A BlackRock está levando a sério as mudanças climáticas. Será um ponto de virada para investidores?

Este artigo foi publicado originalmente no WRI Insights.


Quando a maior empresa de gestão de ativos do mundo, a BlackRock, anunciou em janeiro mudanças radicais em seus investimentos e na abordagem de engajamento, até mesmo os mais céticos sentiram um lampejo de esperança.

Em 9 de janeiro, a empresa se juntou ao Climate Action 100+, um grande esforço de investidores para pressionar as empresas mais poluentes, sinalizando uma importante mudança em direção a uma abordagem mais colaborativa de engajamento corporativo sobre as mudanças climáticas. Menos de uma semana depois, a BlackRock divulgou duas cartas públicas – a carta anual aos CEOs, do CEO da BlackRock Larry Fink, e a carta do Comitê Executivo da empresa para seus clientes – as duas centralizadas na questão da nova abordagem sobre mudanças climáticas.

Essas mudanças são extremamente necessárias, particularmente neste crítico período que antecede a COP 26 em novembro, quando os países vão revisitar suas metas de redução de emissões no Acordo de Paris. Ao lado dos governos, o mundo precisa que investidores, incluindo empresas de gestão de ativos – que têm em conjunto mais de US$ 91 trilhões em ativos – apoiem a transição para uma economia de baixo carbono e resiliente ao clima por meio de seus investimentos. Com o que exatamente Fink se comprometeu em sua carta? Será que a carta pode se tornar o momento de virada para a comunidade de investidores aderirem a investimentos sustentáveis?

Perguntas respondidas

Na carta, Fink expressou uma clara convicção de que as mudanças climáticas estão provocando uma mudança fundamental nas finanças – e, portanto, na estratégia da própria BlackRock. A diferença para suas cartas anteriores é que agora ele coloca o desafio climático no centro e destaca mudanças concretas que a BlackRock está fazendo para enfrentar esse desafio.

Um post recente do blog do WRI destacou algumas das ações específicas que a BlackRock poderia adotar, e muitas dessas ações foram incluídas na carta de Fink, entre elas:

  • Garantir que membros do conselho apoiem uma governança corporativa com base em informações climáticas: Fink escreveu que a empresa está “cada vez mais disposta” a usar os poderes de voto para avançar em ação corporativa para questões sustentáveis.
  • Exigir a divulgação de riscos e oportunidades relacionados ao clima: ele também disse às empresas para “divulgar os riscos climáticos em linha com as recomendações da Task-Force on Climate-Related Financial Disclosures (TCFD), se vocês ainda não o fizeram”, incluindo os planos para alinhar as operações das empresas com as metas de temperatura do Acordo de Paris.
  • Incentivar empresas a definir metas de redução de emissões baseadas na ciência: Fink não menciona esse ponto diretamente, mas isso fica sugerido quando ele pede que as empresas divulguem seus planos para alinhar suas operações com as metas de Paris.
  • Revisitar ofertas de produtos e serviços: A BlackRock anunciou uma série de avanços relacionados a seus produtos, incluindo “fazer da sustentabilidade parte integral do portfólio, da construção e do gerenciamento de risco; abandonar investimentos que apresentam um alto risco relacionado à sustentabilidade, como termelétricas a carvão; lançar novos produtos de investimento que analisam combustíveis fósseis; e fortalecer nossos comprometimentos com a sustentabilidade e transparência em nossas atividades de administração de investimentos”.

O último item é possivelmente o mais complexo. Apesar da BlackRock se comprometer a expandir sua oferta de produtos de investimento sustentáveis, ela evita a integração de análises ambientais, sociais e de governança, e das mudanças climáticas em particular, em todos os seus produtos passivos (que representam a maior parte dos passivos da empresa).

Será um ponto de virada?

O anúncio da BlackRock recebeu bastante cobertura na imprensa, assim como gerou respostas de ativistas. A questão agora é se os comprometimentos da BlackRock podem ser um ponto de virada na comunidade financeira. Eis quatro coisas a observar para ver se este será um momento decisivo:

O anúncio da BlackRock criará um movimento para além da empresa? Foto: pxfuel

1. Outras grandes empresas seguirão os passos da BlackRock?

A BlackRock é uma das “Big Threes”, as três grandes empresas de gestão de ativos do mundo, ao lado da Vanguard e da State Street. Juntas, elas controlam 15% dos ativos globalmente. Isso significa que elas possuem um quinto das ações de empresas da S&P500 e cerca de um quarto dos votos nas reuniões anuais dessas companhias.

Como a BlackRock, a Vanguard e a State Street têm aumentando os produtos de investimento sustentável que oferecem. No entanto, elas foram criticadas por investimentos que prejudicam o clima, particularmente em combustíveis fósseis. A Vanguard tem um histórico ruim no apoio a resoluções de acionistas relacionadas ao clima.

Será que a Vanguard e a State Street se sentirão compelidas a fazer seus próprios anúncios de integrar as mudanças climáticas em suas estratégias? Elas irão se juntar ao Climate Action 100+? Se não, os ativistas passarão a cobrá-las, agora que a BlackRock apresentou compromissos mais fortes para a ação climática?

2. As empresas farão divulgações sobre questões climáticas mais significativas, criando um efeito cascata nos mercados?

Três anos desde que a Task-Force on Climate-Related Financial Disclosures (TCFD) divulgou diretrizes para reportar riscos relacionados ao clima, as empresas ainda não estão fornecendo o tipo de informação que pode ajudar analistas e gerentes a tomar decisões informadas.

A carta de Fink pode mudar isso. A demanda por transparência de um investidor do peso da BlackRock incentiva outras empresas a fazer o mesmo, desde que a BlackRock mantenha a pressão. A BlackRock claramente pretende usar esses dados, por exemplo integrando análises em sua plataforma de gerenciamento de riscos.

As companhias vão dar resposta às demandas da BlackRock e também fornecer divulgações úteis sobre riscos relacionados ao clima? Se sim, os investidores vão usar esses dados para melhorar o entendimento dos riscos climáticos, e isso vai resultar em mudanças na realocação de capital? O próprio Fink afirmou: “No futuro próximo – e antes do que imaginávamos – haverá significativa realocação do capital”. Parece menos uma questão de se, e sim uma questão de quando e como.

3. O engajamento coletivo dos investidores ganhará tração e trará mudanças no comportamento das empresas?

Lançada em dezembro de 2017, a Climate Action 100+ é uma iniciativa para garantir que os maiores emissores corporativos do mundo tomem as ações necessárias para combater as mudanças climáticas. Apesar de um recente relatório de progresso mostrar que há algumas vitórias nesse esforço, ele também revela que a maior parte das empresas ainda não está enfrentando as mudanças climáticas como um risco estratégico de negócios.

Essa é uma preocupação compartilhada por Fink. Em sua carta, ele afirma com letras destacadas em negrito: “risco climático é risco de investimento”. Ao trazer seus US$ 7 trilhões em ativos gerenciados para a iniciativa Climate Action 100+, a BlackRock dá um impulso nas empresas para atender as demandas do grupo e melhorar sua governança corporativa sobre mudanças climáticas de maneira transparente. Mas isso só vai acontecer se a BlackRock decidir usar o seu peso para ativamente contribuir com os esforços da iniciativa.

A BlackRock irá engajar de forma significativa com a Climate Action 100+? As empresas que antes estavam relutantes em atender às demandas da iniciativa vão começar a alinhar seus negócios com os objetivos do Acordo de Paris? Mais especificamente, a coalizão terá progresso com empresas no engajamento de áreas definidas como prioritárias, como uma reforma do lobby, metas mais claras de redução de emissões e atender as recomendações da TCFD?

4. Os governos responderão às preocupações dos investidores sobre medidas relacionadas ao clima?

Fink claramente urge que governos liderem a transição para uma economia de baixo carbono. O desafio climático “não pode ser solucionado sem uma resposta coordenada e internacional por parte dos governos”. Sua carta é para os CEOs e por isso não detalha exatamente quais ações os governos deveriam tomar. Mas outros investidores já compartilharam ideias. Em dezembro de 2019, 631 investidores que controlam mais de US$ 37 trilhões em ativos (sem incluir a BlackRock) pediram que os governos limitassem o aquecimento a 1,5°C e detalharam medidas específicas, incluindo o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis.

Os governos responderão a esse chamado? E será a BlackRock a próxima a fazer esse tipo de sinalização?

Esperançosos, porém vigilantes

Os acontecimentos deste começo de ano com a BlackRock são o tipo de comprometimento positivo e apoio para a ação coletiva necessária por parte de atores financeiros para confrontar as mudanças climáticas. Se esses avanços marcam um ponto de virada vai depender de como outros atores – investidores, empresas e governos – responderão.

Mas muito também dependerá de como a BlackRock seguirá com o que já foi apresentado. Novos produtos serão oferecidos seguindo critérios de sustentabilidade? Tratar o risco climático como risco de investimento levará a mudanças significativas em como ela gerencia seus ativos? A empresa participará ativamente da Climate Action 100+, por exemplo, ao se juntar aos grupos de trabalho da iniciativa? Ela melhorará os resultados de votações nas reuniões de acionistas sobre resoluções relacionadas ao clima? A empresa começará a usar seu poder de voto contra diretores que não apoiam governança corporativa climática?

Como a BlackRock irá proceder ainda permanece um ponto de interrogação. Mas a empresa está no foco das atenções, sendo observada por aqueles que querem cobrar as suas responsabilidades e incentivá-la a fazer mais. Não seguir adiante parece improvável, já que geraria risco de reputação. Nós estamos cautelosamente otimistas que a BlackRock vai cumprir seus comprometimentos e vamos observar para ver quais mudanças eles vão desencadear.

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