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Arquiteta cadeirante descreve o impacto da Covid-19 na acessibilidade

O WRI Brasil convidou a arquiteta Regina Cohen, que é cadeirante, a publicar um relato pessoal sobre a experiência do isolamento social e da quarentena impostos pela Covid-19, para quem enfrenta com mais intensidade e frequência os desafios da infraestrutura para acessibilidade e mobilidade nas cidades brasileiras. Além de arquiteta, consultora e especialista em acessibilidade, Regina faz parte da Rede de Professores Universitários pelas Ruas Completas.


Ontem acordei ansiosa. Mas quem não está nesta pandemia do novo coronavírus em pleno ano de 2020? No estado do Rio de Janeiro e, particularmente, na minha Cidade Maravilhosa, a quarentena teve início em meados do mês de março e eu entrei no confinamento físico e social exatamente a partir do dia 9 daquele mês, logo após ter comemorado, com muita alegria, meu aniversário no dia 4. Estou há 83 dias afastada de muitas coisas que adoro fazer.

Sinto saudades do sol e do mar, mas também de caminhar pelas calçadas do meu bairro de Ipanema, apesar das más condições de acessibilidade. Meus percursos em cadeira de rodas foram interrompidos e ficava imaginando como higienizar meu equipamento de locomoção caso decidisse sair, nem que fosse ir até a esquina. O confinamento me fez ver o quanto convivo diariamente com as barreiras de acessibilidade e tive mais medo ainda de sair por causa delas e para evitar o contágio, trazendo algum vírus para casa, onde moro com minha mãe na casa dos 90 anos.

Na verdade, nunca me acostumei com as dificuldades e, como arquiteta com deficiência, especialista em acessibilidade e consultora internacional, continuo trabalhando pela eliminação desses obstáculos. Ainda me avisaram e me lembraram que com 62 anos, já faço também parte de um outro grupo de risco por causa da idade. Estavam todos errados, porque continuo me sentindo nova e, apesar dos espaços deficientes que encontro, ainda quero rodar pela minha inóspita cidade, pelo meu país e viajar bastante pelo mundo. Ainda tenho muita energia para conhecer o monte de lugares que fazem parte da minha lista de desejos.

Saindo da utopia dos meus sonhos, tive vontade de buscar o que está além da Cidade Fantasma da Covid-19 e passei a me interrogar sobre a acessibilidade do futuro. Bateu, ao longo destes dias, a enorme saudade das ruas, dos amigos, do calor, da cor e da alegria dos lugares. Sinto a falta das palavras de afeto no encontro face a face e da inquietude ou empatia que a urbe, mesmo inacessível, me traz. Dos dias coloridos nunca iguais uns aos outros. E da brisa do mar que amo. Tudo ficou em suspenso.

Vesti minha máscara pela primeira vez para encarar o desafio. E então, decidi dar uma voltinha na praia ali na esquina, apesar de um pouco de angústia e de medo. Tive de encarar uma travessia sem rampas, andar aos sobressaltos pelas calçadas e tomar cuidado com os buracos, evitando a aproximação de menos de 2 metros das pessoas. E como na saída do meu povo judeu do Egito, aquele marzão se abriu para mim, o sol e a brisa acariciaram meu rosto e fiquei um pouco mais feliz.

Pandemia, novo coronavírus e acessibilidade em 2020: a experiência de uma cadeirante

Vivemos um momento que implica diretamente e repercutirá bastante no planejamento das urbes em todo o mundo. A maioria dos profissionais na área de projeto, pesquisadores e estudiosos estão convictos de que a pandemia do coronavírus afetará a maneira de conceber, de experienciar, de viver e de percorrer as cidades. Nossa vivência urbana, certamente, mudará para sempre nossos hábitos e nossa relação com os lugares, mas também nossa mobilidade pelas ruas e pelos espaços urbanos. Sem sombra de dúvida, a pandemia colocou em evidência velhos problemas como a questão da acessibilidade das pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida. Como eu, Regina Cohen, arquiteta com deficiência física que se locomove em cadeira de rodas, estou vivendo as dificuldades adicionais que já vivenciava, mas agora reforçadas por esta fase de quarentena, distanciamento físico e social?

Como percorrer os espaços das cidades, que desejo mais inclusivos e acessíveis para mim e para todos? Enquanto profissional, reflito e busco soluções específicas para enfrentar meus desafios diários de mobilidade enfrentados neste momento específico da Covid-19, através de rotas inacessíveis para a minha locomoção e os meus percursos. Priorizo aqui também minhas emoções e os meus sentimentos na experiência urbana e na acessibilidade que encontro, evitando o contágio ao caminhar nas travessias do Rio de Janeiro. Dentre conversas, troca de ideias, debates, explicações e compartilhamentos, os resultados da minha percepção continuam querendo sair dessa quarentena constante de barreiras e de inacessibilidade vivida por muitas pessoas com deficiência, como eu. Conduzo meu pensamento na busca do desenvolvimento inteligente das cidades, muito além da tecnologia, trabalhando com aquilo que enquanto ser humano tenho de fundamental que é o aspecto subjetivo e emocional no desenvolvimento das minhas atividades diárias.

O percurso pela cidade

Por enquanto, apenas em pensamento, caminho, tentando construir outra maneira de me relacionar com a cidade, que torne as barreiras concretas mais amenas porque deverão falar de outros caminhos. Nesta minha tentativa, gozo o privilégio de ser eu mesma: arquiteta, deficiente e pesquisadora. Posso também ser o caminhante buscando penetrar nos percursos. Busco, em meio a esta pandemia, na alma encantadora das ruas da minha cidade encontrar estes espaços que apareceram mais fechados durante meu confinamento. Como arquiteta tentei, no meu curto passeio pela praia, abrir todos os espaços e os tornar acessíveis. Deixei de caminhar por lugares que achei que não valiam a pena. Caminhei rápido pelo Calçadão de Ipanema, me perdi naquele vazio imposto pelas autoridades de saúde, saboreei com ansiedade meu percurso pelas indesejadas pedras portuguesas, me senti perturbada com o silêncio, mas também curti a inesperada e improvável tranquilidade.

Naquele cantinho de praia busquei uma morada em cada perspectiva, mas duvidei do espaço privilegiado de proteção da casa na qual tenho que viver e me confinar neste período. Superei a minha insegurança e o meu medo pelos mesmos caminhos que tenho percorrido. Fiquei com raiva e revoltada com as adversidades impostas e estou aqui tentando escrever sobre a minha curta e remota experiência urbana em tempos de Covid-19.

O meu espaço secreto vivido no meu sonho foi bastante difícil de realizar. Envolveu uma sublimação das asperezas da calçada, do cuidado e da distância do outro, mas despertou outros sonhos, outros desejos, outros afetos. Depois da minha curtíssima trajetória, de entender a minha relação objetiva com os espaços, foi necessário o entendimento da emergência de uma nova imagem com seu dinamismo próprio. Porque tive que definir por onde poderia caminhar e definir outros percursos para concentrar meu olhar em caminhadas fundamentais efetuadas pelas pessoas com alguma deficiência e pelas quais a cidade se revela para mim e para elas.


foto do calçadão da praia de ipanema


O resultado mais gratificante será observar o poder das transformações, se existirem e quando acontecerem, e o prazer de uma caminhada pela praia, pela praça ou pela rua de meu bairro. Vi estes locais com um duplo ar de proibição: a inacessibilidade e a pandemia. Posso dizer que me sinto privilegiada por morar em um bairro alegre onde não é tão difícil me deslocar com minha cadeira de rodas. Essa é a imagem de um “espaço feliz” que possibilita a apropriação dos lugares amados por mim.

Apesar das muitas dificuldades encontradas no meu curto passeio para a praia, amo minha Cidade do Rio de Janeiro. Busco uma felicidade própria independentemente da situação do caos urbano de inacessibilidade da quarentena, mas que a cidade tem revelado há bastante tempo. Para as pessoas com deficiência se locomoverem, precisamos entender que não é muito simples percorrer aos sobressaltos causados pelas características das ruas. Minha imaginação assume aqui o poder de efetuar mudanças.

Desligando-me do passado e da realidade cruel de muitas cidades, e apontando para um futuro, inauguro o novo que a pós-pandemia pode proporcionar com melhores condições nos meus percursos e de todas as pessoas. Isso fica claro quando, verdadeiramente acredito que o Rio poderá ser uma cidade acessível linda e invento a minha cidade. A urbe ininteligível, recusada e confiscada, que não nos foi concebida, terá de se transformar na cidade ainda invisível que pode conter outras cidades e todos os percursos possíveis.

Penso ter inaugurado aqui uma nova narrativa urbana que pode nascer de cada um dos meus movimentos, de meus desejos e de meus comportamentos. Esta narrativa pode expandir meu mundo e a minha experiência, tornando-as mais reais. O percurso que realizei me fez partir dos espaços para chegar aos lugares de movimento, construindo cidades, ruas e caminhos. Além de pesquisadora e arquiteta, também na qualidade de pessoa com deficiência, decidi criar esta narrativa baseada em minha própria experiência urbana durante um curto percurso neste período de distâncias, quarentenas e incertezas da Covid-19.

Na minha cidade eu consigo caminhar, mesmo sobre as rodas da minha cadeira. Não encontro buracos, degraus ou pedras. As calçadas são lisas e macias. Existem rampas em todas as esquinas. Na minha cidade as ruas não morreram, são alegres e cheias de árvores com pássaros. Tem informações para quem não ouve e consegue orientar quem não vê. A minha cidade fica no Brasil, mas ainda existe apenas nos meus sonhos.

A Cidade do meu Movimento. MINHA CIDADE!

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