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Não existe justiça climática sem justiça racial

O último ano colocou em destaque a emergência climática e a injustiça racial. A preocupação com o estado do meio ambiente nunca foi tão expressiva. Graças ao movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em tradução livre) e a outros relacionados que clamam por justiça, vozes que foram tragicamente marginalizadas por muito tempo finalmente estão sendo ouvidas. Ainda assim, alguns dos ativistas mais fervorosos consideram essas lutas separadas.

Como a relação entre cigarros e câncer pulmonar, ou beber em excesso e ter uma ressaca, a injustiça racial e o legado do colonialismo estão ligados de maneira indissociável às mudanças climáticas. Os países mais ricos do mundo hoje não são aqueles com os recursos naturais mais valiosos, mas aqueles que implacavelmente saquearam recursos de outros.

Nos Estados Unidos, uma família branca média é 41 vezes mais rica do que uma família negra média. O legado da segregação racial é extenso. Pessoas que não são brancas, muitas vezes em empregos com salários mais baixos, são forçadas a viver nas moradias mais baratas, que tendem a ser perto das ruas mais movimentadas, em comunidades mais próximas a indústrias poluentes e locais onde são depositados resíduos perigosos.

Seja em Londres, Flint, Chennai ou Naucalpan De Juárez, o racismo ambiental há muito prejudica os povos indígenas e as pessoas negras. Muitas vezes, são as comunidades negras e pardas as que menos contribuíram para o colapso climático e, ainda assim, as que acabam sofrendo mais. Nas tentativas de responder à crise, essas comunidades raramente conseguem um assento na mesa de tomada de decisão.

Para que tanto a ação climática quanto o movimento por justiça racial sejam bem-sucedidos, essas questões precisam ser consideradas indissociáveis.

Em primeiro lugar, os pacotes de estímulo da Covid-19 são uma oportunidade não apenas de promover uma recuperação melhor, mas uma recuperação mais negra, mais justa e mais verde. Pessoas não brancas têm mais chances de morrer e perder seus empregos ou seus negócios em decorrência da pandemia. À medida que o mundo se recupera, precisamos apoiar as empresas sustentáveis conduzidas por pessoas de grupos minoritários, colocar os empregos verdes e a requalificação de mão de obra no centro da recuperação e capacitar e investir nas comunidades que ficaram para trás.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, assinou recentemente o Plano de Resgate Americano, de US$ 1,9 trilhão, o qual, entre outras disposições antirracistas, inclui cerca de US$ 5 bilhões para agricultores negros a quem tem sido sistematicamente negado o acesso a crédito e apoio em solicitações de empréstimos. À medida que Biden agora se volta para um plano de infraestrutura abrangente, a medida de seu sucesso será a maneira como ele vai trabalhar para cumprir sua promessa de campanha, de criar uma economia sustentável e equitativa, e implementar a iniciativa Justice40. Esses esforços também devem servir de inspiração para outros líderes mundiais.

Em segundo lugar, a conferência climática das Nações Unidas deste ano, a COP26, em Glasgow, no Reino Unido, é outra oportunidade de exigir soluções para a emergência climática que priorizem a injustiça social e racial. Precisamos de ação climática em escala internacional que reconheça essa verdade urgente: justiça climática é justiça racial.

Isso significa que os países ricos precisam definir metas climáticas nacionais ambiciosas para 2030. Alcançar o objetivo do Acordo de Paris de evitar que as temperaturas médias do planeta aumentem mais de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais pode salvar espécies, meios de subsistência e vidas. A nova e ousada meta dos Estados Unidos, de reduzir as emissões em pelo menos 50% até 2030 (em comparação aos níveis de 2005), injetou apenas parte da energia necessária na ação climática. Mas o mundo ainda não está no caminho certo.

Os países desenvolvidos também precisam aumentar o apoio financeiro ao mundo em desenvolvimento, onde bilhões de pessoas em países anteriormente colonizados sofrem os impactos desproporcionais dos desastres relacionados ao clima. Embora os países ricos tenham conseguido mobilizar US$ 15 trilhões em resposta à pandemia de Covid-19, ainda não cumpriram a promessa coletiva de oferecer US$ 100 bilhões por ano em financiamento climático até 2020.

Não apenas esse compromisso financeiro precisa ser cumprido como uma meta mais ambiciosa precisa ser estabelecida para além de 2025. As lideranças também precisam pensar em como tratar a dívida paralisante que enfrentam muitos países vulneráveis ao clima. Essas etapas são de urgência moral e pragmática. A ajuda e o alívio da dívida que reduzam as emissões globais e aumentem a resiliência nos levarão a um planeta mais estável e próspero para todos.

Uma vez que a COP26 deve ser ao mesmo tempo ambiciosa e realista, os países também precisam oferecer uma resposta coletiva e adequada para combater o que é chamado de “perdas e danos” – os agora inevitáveis impactos econômicos e não econômicos das mudanças climáticas no meio ambiente e na infraestrutura dos países. Por anos, essa questão tem sido menosprezada pelos países ricos com poder sobre os termos das negociações climáticas, às custas de países do Sul Global. Não mais.

Em terceiro lugar, as comunidades que lutam pela justiça racial e pelo clima precisam se unir. Por tempo demais, líderes do movimento climático dos Estados Unidos e do Reino Unido, em sua maioria pessoas brancas, não prestaram atenção suficiente aos impactos climáticos sentidos pelas pessoas negras e pardas. Esse não apenas é um equívoco, é um sinal de teimosia. Como disse o ex-presidente da NAACP, Ben Jealous, não existe voto verde sem o voto de negros e pardos.

Para concretizar essa visão, precisamos apoiar ativamente as pessoas não brancas para que tenham mais visibilidade e autonomia. Precisamos de mais pessoas não brancas em nossos escritórios, salas de reuniões, instituições multilaterais e nas telas, falando sobre racismo ambiental e liderando a mudança. Precisamos de bolsas de estudo que abram os campos da ciência ambiental e da ciência climática a mais jovens negros. E precisamos usar nossas posições de influência para acabar com os esforços flagrantes e persistentes de suprimir a voz dessas pessoas.

A boa notícia é que alguns já estão conduzindo essa mudança, como Vanessa Nakate na Uganda, Leah Thomas na Intersectional Environmentalist, e as iniciativas Verde para Todos e o Projeto Soluções. Todos os governos, empresas, ONGs e a sociedade civil devem fazer sua parte também.

Não podemos fechar os olhos para as diferenças de cor e raça em nossa resposta à crise climática. Fazer isso e simplesmente esperar pelo melhor implica legitimar o mesmo sistema que nos colocou nessa confusão. As mudanças climáticas podem ser a conclusão natural do colonialismo, mas reconhecer essa realidade é o primeiro passo para promover ações significativas em prol da equidade racial e do clima.


Este artigo foi publicado originalmente na revista TIME.

David Lammy é deputado do Partido Trabalhista britânico e representante parlamentar de Tottenham, no norte de Londres.

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