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Como a Regeneração Natural Assistida pode dar escala aos esforços para a natureza se recuperar

Desde o ano passado estamos vivendo a Década de Restauração de Ecossistemas, o período de 2021-2030 definido pela ONU como momento-chave para se recuperar milhões de hectares de vegetação nativa em todo o mundo. Para essa restauração acontecer em larga escala, precisamos investir em uma técnica de restauração conhecida como Regeneração Natural Assistida (RNA).

Uma parceria entre WRI Brasil, Imazon, ICV e Suzano busca incentivar a adoção de práticas de condução da regeneração natural na Amazônia, em especial nos estados de Mato Grosso e Pará.

Mas o que é a RNA, como ela se dá na prática e quais os fatores importantes para que ela tenha sucesso?

Regeneração Natural Assistida

O que é a regeneração natural assistida?

Há várias formas de recuperar áreas degradadas e a vegetação nativa – desde a mais conhecida, o plantio ativo de mudas, até apenas deixar a mata voltar a crescer em uma área. No meio do caminho está a regeneração natural assistida. Essa técnica conta com a capacidade da vegetação se recuperar naturalmente em uma área, mas com intervenções humanas para conduzir e acelerar essa recuperação.

Na RNA, as pessoas intervêm no processo de crescimento da vegetação para acelerar a recuperação, eliminar barreiras e proteger áreas, se mostrando como uma das ferramentas mais eficientes para dar escala à restauração de paisagens e florestas.

Como a regeneração natural assistida se parece na prática?

O que significa intervir para ajudar a floresta a se regenerar?

Uma série de intervenções podem ser executadas por quem trabalha no campo e por quem coordena projetos de restauração. Sete grandes grupos de intervenções foram identificados:

  1. Proteger do fogo: O fogo é uma das principais causas de degradação de uma área. Proteger a vegetação em crescimento por meio de ações preventivas e instalar aceiros ao redor da área para evitar que o fogo se propague são formas eficientes de assistir a regeneração. Os aceiros são faixas onde a vegetação é eliminada da superfície, semelhantes a estradas, e servem para que o fogo não se propague de uma área a outra.
  2. Enriquecer com espécies nativas: Podemos ajudar uma área em que a regeneração já esteja em curso enriquecendo com germinação e plantio de espécies nativas. Isso pode ser feito com árvores de importância ecológica, facilitando o reestabelecimento da dinâmica florestal e dos serviços ecossistêmicos da área, e também com espécies com uso econômico (como árvores frutíferas, por exemplo), permitindo que as pessoas tenham uma fonte de alimento ou renda daquela área. A intervenção de enriquecimento pode incluir a dispersão de sementes, a muvuca de sementes e o plantio de mudas.
  3. Manejar o gado: o gado bovino e outros animais de criação que se alimentam de pastagens podem comprometer o crescimento da vegetação em uma área ao pisotear ou comer as plantas em regeneração. Retirar o gado da área a ser restaurada e controlar o acesso às pastagens em regeneração evitam esse problema. Mas o gado não precisa ser um vilão. Algumas técnicas experimentais já integram o rebanho ao arranjo de regeneração, usando os animais para comer as vegetações de espécies invasoras e, desta forma, favorecer o crescimento de nativas.
  4. Controlar espécies invasoras e/ou exóticas: Espécies invasoras ou exóticas são tipos de plantas que, fora de seu habitat natural, podem se espalhar descontroladamente se não contidas, competindo com as nativas. No contexto brasileiro, uma das invasoras que mais comprometem a restauração é gramínea braquiária. Capim originário da África, foi introduzido no Brasil para pasto e quando não manejada corretamente sufoca o nascimento de espécies nativas. Controlar espécies por meio de capina seletiva é uma forma de auxiliar a regeneração de uma área.
  5. Controlar formigas e outros insetos: Formigas cortadeiras, cupins e outros insetos podem viver em ambientes desequilibrados como se fossem pragas, provocando atraso no crescimento ou mesmo morte da vegetação, em especial as árvores. Identificar formas de conter ou controlar uma infestação permite que as espécies em regeneração continuem saudáveis e em crescimento.
  6. Instalar cercas e isolar áreas: Isolar a área em que a regeneração acontecerá é uma maneira efetiva de retirar fatores de degradação – como a exploração predatória de produtos da floresta ou criação de animais. Isso permite que a vegetação nativa cresça sem enfrentar novos episódios de degradação.
  7. Proteger a vegetação em regeneração: As plantas que nascem espontaneamente em uma área, chamadas de “indivíduos regenerantes”, podem ser protegidas por meio de coroamento, adubação de cobertura e outras formas de apoio para continuarem saudáveis. Isso faz com que elas tenham maior chance de prosperar, acelerando a regeneração a mantendo a diversidade de espécies nativas.

Essas intervenções não precisam ser isoladas. Aplicar várias ações em conjunto – por exemplo, em uma mesma área construir cercas, controlar invasoras e enriquecer com plantio de nativas – pode facilitar a condução da regeneração natural naquela área, trazendo benefícios para as pessoas que ali vivem ou produzem.

Quais os benefícios da regeneração natural assistida?

A RNA é uma solução baseada na natureza com custos reduzidos de implementação e com potencial de gerar grandes resultados para a sociedade. Um deles é sua capacidade de acelerar a restauração em áreas próximas de outras florestas. Um estudo analisando áreas com potencial de regeneração próximas de fragmentos florestais identificou que a regeneração natural pode acelerar a restauração em quase 240 milhões de hectares de florestas tropicais ou temperadas, uma área maior do que o território da Groenlândia. O potencial de ampliação da restauração de florestas em todo o mundo foi estimado, por outro estudo, em 900 milhões de hectares – uma área equivalente ao território dos Estados Unidos – sem impactar áreas urbanas ou agrícolas. E a RNA tem grande potencial para ser usada nessas áreas.

O bom custo-benefício também é uma vantagem da regeneração natural assistida quando comparado com outras estratégias. Um estudo que analisou o potencial da regeneração natural na Mata Atlântica estimou o quanto seria necessário de recursos para se recuperar 18 milhões de hectares. Comparada com as despesas do plantio direto, por exemplo, o trabalho mostrou que a RNA reduz o custo da implementação em 77%.

As florestas regeneradas também exercem um papel importante na mitigação das mudanças climáticas. Um estudo estimou o quanto a regeneração natural de florestas poderia tirar de carbono da atmosfera. O resultado mostrou que deixar as florestas se regenerarem de forma natural tem o potencial de absorver até 8,9 bilhões de toneladas métricas de dióxido de carbono da atmosfera por ano até 2050. É o equivalente a absorver 23% das emissões globais de CO2 da atmosfera todos os anos.

Quais os fatores-chave de sucesso da regeneração natural assistida?

Para que as intervenções de RNA tenham sucesso e consigam recuperar uma área, gerando benefícios tanto para quem trabalha no local quanto para a sociedade, é importante que algumas condições e fatores-chave de sucesso estejam presentes para motivar ações que ajudem na manutenção da regeneração natural.

Utilizando a metodologia ROAM, é possível dividir esses fatores em três grandes temas: motivação, facilitação e implementação. Gerar benefícios ambientais, econômicos e socais, ter condições de mercado favoráveis ou a presença de incentivos financeiros são alguns desses exemplos.

Quais os números que já temos de regeneração natural no Brasil?

Apesar do grande potencial, ainda são necessários mais estudos e levantamento de casos para conseguirmos ter um panorama de quantos projetos ou hectares já foram recuperados com a regeneração natural assistida. Um estudo publicado por WRI Brasil e parceiros dá um passo nessa direção, apresentando casos de sucesso da aplicação dessa técnica no Brasil e no mundo.

Mas, mesmo sem intervenções da RNA, já há uma grande quantidade de áreas em regeneração natural no Brasil. A partir de dados do MapBiomas, o Observatório da Restauração e Reflorestamento já mapeou quase 11 milhões de hectares de florestas em regeneração no Brasil, a maior parte na Amazônia. O desafio é garantir que essas florestas secundárias prosperem e não sejam desmatadas no futuro. Por isso a intencionalidade – a intenção em manter uma área em processo de restauração – é tão importante. Intervenções de regeneração natural assistida mostram essa intenção, separando a RNA de áreas que foram apenas abandonadas, e garantindo o compromisso das pessoas para que essas áreas se tornem florestas no futuro.


Assista ao webinar "Regeneração Natural Assistida: Como podemos ajudar a floresta a se recuperar"

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