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Incluir lente de gênero em projetos e políticas é bom para mulheres e para toda a sociedade

Além de um imperativo moral, equidade de gênero é um caminho para reduzir a pobreza e gerar benefícios para toda a sociedade. Crises como a do clima e a da Covid-19 impactam grupos distintos de formas também diversas. A lente de gênero é vital na agenda do desenvolvimento sustentável e nos planos de recuperação – não apenas para reduzir vulnerabilidades e impactos a que mulheres estão expostas em todo o mundo, mas para potencializar a transformação. Mulheres são agentes de mudança cuja inclusão pode tornar os planos de recuperação mais efetivos, o desenvolvimento mais sustentável e as sociedades mais prósperas.

Mulheres estão na linha de frente do enfrentamento à Covid-19, correspondendo a 70% da força de trabalho em assistência social e de saúde. Um estudo da FGV identificou que profissionais de saúde negras foram especialmente impactadas no Brasil, por ocuparem posições menos valorizadas.

As mulheres brasileiras estudam mais, gastam mais tempo em tarefas domésticas não remuneradas e têm pior remuneração do que os homens (IBGE, 2018). Ainda há um longo caminho a percorrer. Um passo importante é “garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis de tomada de decisão na vida política, econômica e pública” – como estabelece a Organização das Nações Unidas entre as metas de igualdade de gênero dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Do ponto de vista econômico, há uma oportunidade de adicionar US$ 12 trilhões ao PIB Global até 2025, 11% mais do que seguindo a trajetória usual.

Para a agenda ambiental e climática, as mulheres são aliadas indispensáveis, tanto nas comunidades quanto em cargos técnicos e nas esferas decisórias. A seguir, conheça alguns projetos que colocam as mulheres no centro da transformação que queremos e de que precisamos para o avanço da ação climática, da restauração de florestas e ecossistemas, e de cidades mais humanas, sustentáveis e seguras.

Incluindo gênero na ação climática

A desigualdade de gênero se reflete na subrepresentação das mulheres nas decisões sobre ação climática nas últimas décadas. Em 2015, na COP21, palco da aprovação do Acordo de Paris, as mulheres eram minoria tanto nas delegações oficiais (5,9 mil mulheres ante 12 mil homens) quanto entre representantes da sociedade civil (43% dos quase 8 mil observadores).

Para promover adaptação e resiliência, é fundamental que a ação climática incorpore as dores e o potencial das mulheres diante da crise do clima. O Plano de Ação sobre Gênero da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, da sigla em inglês) reconhece que a participação e liderança equânimes das mulheres na política climática em todos os níveis é vital para atingir as metas de forma efetiva, justa e sustentável. As ações previstas no plano vão de treinamentos para análises de dados desagregados de gênero à promoção de capacitação e fundos de viagens para apoiar a participação de mulheres e de indígenas em todas as delegações nacionais nas sessões da Convenção.

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Oficina sobre gênero da Convenção Quadro da ONU sobre Mudanças Climáticas em 2018 (foto: Jan Golinski/UNFCCC)

A “NDC Partnership”, iniciativa hospedada pelo WRI e pela UNFCCC, busca estimular o aumento da ambição dos compromissos climáticos e acelerar sua implementação. Uma das preocupações é que as NDCs incluam entre suas premissas a promoção da equidade de gênero como um vetor importante para fortalecer a implementação da agenda climática dos países. Em 2018, apenas 64 de 190 países incluíam referências a mulheres ou gênero em seus compromissos – a maioria referindo-se a mulheres apenas como grupo vulnerável, sem identificar sua importância como agentes de mudança.

A NDC brasileira originalmente submetida em 2015 destacava o compromisso com políticas e planos responsivos à questão de gênero. Em sua NDC atualizada (submetida à UNFCCC em dezembro de 2020), o governo reconhece que a participação social no planejamento da ação climática deve incluir a perspectiva de gênero. Estes preceitos ainda precisam ser postos em prática, com transparência e participação social efetivas na construção da política climática.

Empoderamento feminino por meio da restauração

Restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030 é meta da NDC brasileira no Acordo de Paris. É evidente que as mulheres devem ser parte importante desta entrega.

A restauração é uma oportunidade para o Brasil na retomada econômica e pode gerar entre 112 mil e 191 mil empregos rurais diretos por ano. Considerando que muitas das ações de restauração envolvem o setor florestal, compreender os cenários acerca da atuação e presença das mulheres pode apoiar a tomada de decisão das instituições. A Rede Mulher Florestal publicou o primeiro Panorama de Gênero do Setor Florestal que mostra que as mulheres são 13% do total da força de trabalho do setor. E ainda, que sua atuação se dá em viveiros e nas áreas de pesquisa, administração, saúde e segurança do trabalho, meio ambiente e certificação florestal.

Essa compreensão também é necessária no desenvolvimento de políticas e planos. A Metodologia de Avaliação de Oportunidades de Restauração (ROAM) utilizada por organizações brasileiras como o WRI Brasil para apoiar o planejamento e a construção de estratégias para restauração de paisagens e florestas possui diretrizes específicas de como incluir e abordar a temática nesses processos.

<p>foto de mulher e homem olhando planilha</p>

Pela educação, mulheres da família Soares despertaram para restauração da Amazônia (foto: Joana Oliveira/WRI Brasil)

Para beneficiários da restauração, incorporar a lente de gênero é um caminho para reduzir iniquidades gerando benefícios para as famílias e comunidades rurais. “Se empoderadas, mulheres podem gerar mais renda na família, investem mais em educação para os filhos, em garantir que a família está comendo bem. Tudo isso está muito conectado com a restauração”, explicou a analista de Florestas do WRI Brasil, Mariana Oliveira, em participação no podcast Tom da Mata, do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica. Projetos apoiados pelo WRI Brasil em Juruti (PA) e Pintadas (BA) são exemplos de como as mulheres se engajaram e ajudaram a criar um movimento pela restauração local.

A cidade das mulheres é melhor para todas as pessoas

Durante o Transforming Transportation, evento global sobre transporte e mobilidade do WRI e do Banco Mundial, um painel 100% feminino enfatizou a urgência de se incorporar as questões de gênero – e envolver mulheres – em cada etapa do planejamento do transporte na reconstrução das economias. Mulheres são a maioria das pessoas que caminham e usam transporte coletivo – e as principais vítimas do assédio e da violência durante seus deslocamentos. Promover e dar escala ao transporte sustentável passa por tornar a mobilidade e a cidade mais seguras para as mulheres. Mas como?

Um bom exemplo vem de Fortaleza. Em 2018, a cidade foi pioneira ao implantar a Nina, plataforma digital para denúncia de assédios no transporte coletivo. A plataforma, criada pela designer Simony Cesar, foi uma das finalistas do InoveMob, concurso de soluções inovadoras em mobilidade promovido pelo WRI Brasil e pela Toyota Mobility Foundation. Sistemas de transporte coletivo, que enfrentam um dos piores momentos da crise financeira e de demanda que já aflige o setor há alguns anos, devem incorporar indicadores voltados à equidade de gênero e ao respeito às mulheres em sua operação.

<p>foto de smartphone com aplicativo de denúncia de assédio</p>

Plataforma Nina facilita a denúncia e o monitoramento de assédio no transporte coletivo (foto: Daniel Hunter/WRI Brasil)

Mulheres são a minoria das pessoas que pedalam em cidades brasileiras e na América Latina. Uma provável razão é o acesso a infraestrutura cicloviária. Em Bogotá, um estudo do WRI Ross Center com a organização Despacio mostrou como o planejamento ignorava aspectos de como as mulheres se deslocam pela cidade – por exemplo, que mulheres pedalam predominantemente em locais com boa infraestrutura, chegando a 21% do total de ciclistas. Em Buenos Aires, a implantação de ciclovia em uma via arterial durante a pandemia levou a um aumento na proporção de ciclistas mulheres, de 11% para 28%.

A segurança viária e a qualidade da infraestrutura são partes cruciais de uma cidade inclusiva. O desenho das ruas e espaços públicos deve ser democrático e prover condições confortáveis para a mobilidade de todos os usuários, assegurando o seu direito à cidade, o acesso a oportunidades e o equilíbrio para melhor qualidade de vida. O incentivo ao transporte coletivo de qualidade, ao ciclismo seguro e ao caminhar confortável favorecem a mobilidade das mulheres e trazem benefícios para toda a sociedade, resultando em menos mortes e lesões no trânsito, menos emissões de carbono, mais bem-estar e saúde dessa e das próximas gerações.

Metade do capital humano global

O crescimento dos estudos de gênero e da inserção dessa lente na produção de dados tem evidenciado a defasagem e desconhecimento sobre os desafios e dificuldades reais enfrentados por mulheres, assim como as potencialidades de se promover a equidade. Isso reforça a necessidade de aumento do número de mulheres em espaços de decisão e liderança, orientando a criação de políticas públicas e os investimentos.

Tema central das metas de desenvolvimento sustentável, as mulheres são lideranças cruciais para elaborar, articular, implementar e avançar esta agenda. Não apenas por saberem como ninguém qual a realidade concreta por trás de termos como igualdade e equidade de gênero. O desenvolvimento econômico, social e ambiental de toda a humanidade não pode prescindir de metade do capital humano global. O compromisso com a equidade de gênero é o compromisso inadiável com o presente e o futuro do planeta.

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