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Urbanismo tático permite que alunos de Campinas ajudem a repensar entorno de escola

Em um processo colaborativo, Campinas conduziu uma série de intervenções de urbanismo tático no entorno de uma escola com ajuda de alunos e comunidade. O urbanismo tático viabiliza a realização de mudanças rápidas nas vias. É também por isso que vem sendo utilizado por diversas cidades no mundo – e, nos últimos anos, também em cidades brasileiras como São Paulo, Juiz de Fora, Porto Alegre e Belo Horizonte.

O urbanismo tático é uma forma eficiente, com custo reduzido, de enfrentar desafios de segurança viária, mobilidade e acessibilidade nas cidades – e de testar novos perfis de ruas, que priorizem pedestres e ciclistas, os usuários mais vulneráveis. Por isso, muitas intervenções do tipo ocorrem em centros históricos ou em polos geradores de viagens nas cidades – locais que concentram grandes fluxos de pessoas – de forma a maximizar os potenciais benefícios.

Dois grupos de pedestres são particularmente vulneráveis: crianças e idosos. Uma via projetada de forma segura para esses usuários será mais segura para os demais. É o que Campinas fez ao realizar um projeto piloto no entorno da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Vicente Rao, na região sul da cidade: tornou a área mais segura para os 700 alunos que frequentam a escola e para todos que caminham pela área. A intervenção realizada na rua Custódio José Inácio Rodrigues, junto ao portão de entrada da escola e em outros pontos da via, promoveu medidas de traffic calming, instalação de um parklet, incentivo à mobilidade ativa, além de atividades culturais.


<p>Processo de urbanismo tático</p>

O processo de urbanismo tático seguido por Campinas (foto: EMDEC)


Construção colaborativa

Um ponto importante da abordagem de urbanismo tático é que os usuários das vias sejam incluídos no processo de planejamento e implementação das intervenções – afinal, serão eles os afetados pela transformação. A comunicação e a participação de todas as pessoas impactadas é muito importante para não gerar reações contrárias, especialmente considerando o caráter disruptivo de algumas medidas implementadas.

Foi assim em Campinas. Realizado pela Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas da Secretaria de Transportes (EMDEC) com diversas parcerias, o projeto incluiu reuniões na prefeitura sobre o tema de urbanismo tático, além da participação da comunidade. Alunos, professores, pais e vizinhos da escola foram envolvidos em diferentes etapas da elaboração do projeto piloto.

Durante a etapa inicial de diagnóstico, técnicos da EMDEC verificaram que, enquanto esperavam o portão abrir, pais e alunos ocupavam a calçada e parte da pista local, ambas com respectivamente 2 e 8 metros de largura. Claramente o espaço destinado aos veículos estava superdimensionado em relação ao espaço destinado aos pedestres. Pela falta de local apropriado para se acomodar, algumas crianças sentavam-se no chão. A aglomeração de pessoas comprometia o fluxo de pedestres na calçada. Nos horários do pico de entrada e saída dos alunos, o grande fluxo de veículos e o desrespeito à sinalização ocasionavam filas duplas na pista local. Muitas crianças desembarcavam no meio da rua, sob risco de serem atropeladas.


<p>A escola antes da intervenção: crianças sentavam no chão e ocupavam parte da via</p>

A entrada da escola antes da intervenção: crianças sentavam no chão e ocupavam parte da via (foto: EMDEC)


Após o diagnóstico inicial, a EMDEC realizou oficinas com a participação de todos os alunos e professores da escola apresentando os conceitos de urbanismo tático e acessibilidade. Em uma caminhada guiada com os alunos, foram avaliadas condições da via como qualidade da sinalização, características das calçadas e conforto térmico. Após concluir a caminhada, alunos e outros usuários da via esboçaram, através de desenhos, textos e até por páginas em redes sociais, propostas para as mudanças desejadas. As principais necessidades constatadas foram a criação de uma faixa de travessia e a ampliação da calçada em frente à entrada com algum tipo de mobiliário urbano que permitisse aos estudantes aguardar pela abertura dos portões.


<p>Instalação de parklets deu a alunos espaço de convivência seguro</p>

Instalação de parklets deu a alunos espaço de convivência seguro (foto: EMDEC)


Um benefício indireto desse tipo de intervenção é o aspecto educacional. Existe a oportunidade de conscientizar as crianças a respeito de temas como segurança viária, sustentabilidade e mobilidade em geral – e de engajá-las ativamente na transformação pela qual serão beneficiadas.

“Muitas crianças sentiram-se verdadeiramente motivadas, acompanharam as etapas de criação, conversaram com a equipe técnica sobre suas ideias. Foi recompensador ouvi-las dizendo, após a implantação da intervenção, que o projeto ficou exatamente como elas haviam desenhado. Ali começou a mudança”, avalia Michelle da Silveira Rosa, Analista de Mobilidade Urbana da EMDEC e principal técnica responsável pelo projeto.

Outro benefício a destacar é o aspecto de inclusão social. Participaram diretamente dos trabalhos reeducandos do “Programa Municipal de Reinserção de Sentenciados e Egressos do Sistema Penal Paulista”, e colaboradores do projeto “Mão Amiga”, que oferece oportunidade de trabalho para pessoas em situação de rua.

A realização da intervenção ocorreu em outubro de 2019, em um evento em que todos os envolvidos no processo foram convidados a participar. A rua foi fechada para trânsito de veículos e diversas atividades recreacionais também foram planejadas para os alunos.

Monitorar, consolidar, replicar

Após todo o processo de diagnóstico, participação da comunidade, estudo dos materiais e possíveis parcerias, diversos componentes foram incluídos na intervenção, entre eles:

• Qualificação das duas interseções próximas a escola na Rua Custódio Inácio José Rodrigues com extensões de calçada junto às esquinas.

• Criação de parklet em estrutura de madeira com diversos tipos de mobiliário urbano no entorno, como lixeiras, bancos, vegetação, biblioteca e horta comunitárias, amarelinha e paraciclo.

• Sinalização horizontal e vertical da rua foi revitalizada. Instalação de rampa de acesso junto à vaga para pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida.

• Faixa de travessia junto a entrada da escola com distância de travessia reduzida em função da estrutura de madeira.

• Lombada removível com material emborrachado antes da nova travessia para promover a redução de velocidades.

<p>Crianças escolhem livros na biblioteca comunitária</p>

Crianças escolhem livros na biblioteca comunitária: participação na elaboração e nos ganhos (foto: EMDEC)


Atualmente, a fase temporária do projeto vem sendo analisada e monitorada. Este tempo é importante para entender o que funcionou ou não no novo espaço, ouvir os usuários e fazer as adequações necessárias para a implantação da fase permanente.

Para o gestor do projeto, Marcelo Oliveira, é de se destacar o fato de que a iniciativa superou desafios técnicos e orçamentários e conseguiu engajar atores públicos e privados tão diversos. "Culminou com a imensa satisfação de vermos tantos atores fazendo a diferença e efetivamente melhorando a segurança, mobilidade e qualidade de vida das pessoas, que agora podem reapropriar-se da via e ter nela um local de convívio adequado", comemora Oliveira, que é gerente da divisão de Inovação e Tecnologia para Mobilidade Urbana da EMDEC.


<p>Extensões de calçada também foram implantadas em esquinas próximas à escola</p>

Extensões de calçada também foram implantadas em esquinas próximas à escola (foto: EMDEC)


Pesquisas foram realizadas antes e logo após a intervenção e os entrevistados avaliaram de forma muito positiva a intervenção. Os principais problemas identificados na pesquisa inicial foram solucionados, contudo o monitoramento contínuo é essencial. Essas informações estão também servindo de base para o desenvolvimento de uma versão mais durável da intervenção, viabilizando sua implantação em diversas outras escolas do município.

Campinas faz parte da Rede Nacional para Mobilidade de Baixo Carbono dentro do Programa Ruas Completas, que conta atualmente com 21 cidades, organizado pelo WRI Brasil em parceria com a FNP. O conceito de urbanismo tático vem sendo difundido pela rede como uma boa prática e o exemplo de Campinas no trabalho com escolas certamente influenciará outras cidades brasileiras.

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