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Brasil precisa de uma plataforma eficiente para monitorar a restauração de paisagens e florestas

O Brasil é um país que precisa restaurar. Há hoje um grande potencial de oportunidade de restauração de áreas degradadas no país - mais de 65 milhões, segundo o Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig) da Universidade Federal de Goiás (UFG). O reflorestamento e a inclusão de árvores em sistemas produtivos pode ser a chave para uma produção agrícola que não avance nas florestas naturais, que proteja o solo, melhore a qualidade da água e gere emprego e renda no meio rural.

Muitos produtores rurais, empresas e governos já estão fazendo a sua parte. A série As Caras da Restauração, por exemplo, mostrou casos reais de produtores que estão engajados no reflorestamento e na restauração com fins econômicos na Amazônia, Mata Atlântica e Caatinga, e sabemos que há muitos outros pioneiros da restauração nos demais biomas do país. Mas como garantir que todos os projetos de restauração existentes sejam computados para, assim, sabermos se o país está conseguindo cumprir sua meta de restaurar 12 milhões de hectares até 2030?

A Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, em parceria com diversas organizações, incluindo o WRI Brasil, está trabalhando na criação de uma Plataforma de Monitoramento da Restauração e Reflorestamento. A plataforma pretende unir os dados de campo com o que há de melhor da tecnologia de monitoramento via satélite para traçar um panorama completo do reflorestamento e da restauração em todos os biomas brasileiros. Com a plataforma, será possível reconhecer o trabalho e esforço de quem está investindo e promovendo a regeneração dos ecossistemas no Brasil.

Uma plataforma inovadora

O Brasil já tem um dos mais consolidados sistemas de monitoramento da mudança do uso da terra do mundo. Sistemas como o Prodes, que divulga dados do desmatamento anual, e o Deter, que emite alertas em tempo quase real de desmatamento, ambos do Inpe, são exemplos disso. Também o MapBiomas, um importante projeto de mapear o uso da terra no país todo, e o SEEG, que estima emissões de gases de efeito estufa, ambos sistemas criados pela sociedade civil, ajudam a monitorar o uso da terra no país.

Esses sistemas utilizam imagens de satélite e inteligência artificial para identificar quando um pixel deixa de representar uma floresta e passa a mostrar um solo. Eles são excelentes ferramentas para representar o desmatamento. Porém, para a restauração, há desafios técnicos importantes, como distinguir o que é a regeneração de uma área abandonada e que pode ser desmatada novamente no futuro, de um projeto elaborado especificamente para restaurar a paisagem.

Para apresentar dados consistentes de restauração no país, a plataforma busca um caminho inovador, que é trabalhar com dois conjuntos de dados diferentes. O primeiro são os dados de imagens de satélites em que o país já é referência, como os da MapBiomas. O segundo é fazer um trabalho de criação de banco de dados. Grupos, organizações e coalizões – como o Pacto para a Restauração da Mata Atlântica, a Black Jaguar Foundation e o Conservador da Mantiqueira –, já têm dados espaciais sobre áreas restauradas. Consolidando essas informações em um banco de dados, a plataforma conseguirá mostrar um panorama não só com um olhar de cima, do satélite, mas também com os dados de quem está no chão, plantando neste momento.

Princípios para a plataforma

Para que uma plataforma de monitoramento da restauração seja eficiente e apresente resultados concretos, ela precisa estar alinhada a alguns princípios norteadores. Três grandes princípios podem ajudar a plataforma a se tornar referência no país: visibilidade, confiabilidade e transparência.

  • Visibilidade: o grande desafio da restauração florestal hoje é dar visibilidade aos produtores rurais e organizações locais que estão plantando florestas. Atualmente, as informações sobre essas pessoas estão dispersas. Coletivos, organizações e empresas já têm informações sobre seus próprios projetos. A plataforma permitirá agregar todos esses dados, dando visibilidade a quem merece ser reconhecido pelo esforço da restauração e ao mesmo tempo congregando, num só lugar, diversas informações específicas desses projetos.
  • Confiabilidade: além de agregar e dar visibilidade, os dados precisam ser confiáveis. Um importante trabalho para avaliar e analisar dados, evitando sobreposições de banco de dados e mapeamentos, permitirá criar um panorama confiável, com a garantia de que todos os dados serão contabilizados e que não haverá dupla contagem.
  • Transparência: os dados precisam ser transparentes. Eles podem ser questionados, estudados e analisados por terceiros, garantindo que a sociedade possa fiscalizar os resultados apresentados pela plataforma e reforçando os princípios de visibilidade e confiabilidade.

Monitoramento pode ser útil para toda a sociedade

Uma plataforma eficiente para o monitoramento da restauração pode ser útil para muitos atores na sociedade. Para os governos, é uma ferramenta que permitirá medir os resultados das políticas públicas, ajudando a saber se o país está próximo ou distante de cumprir a meta de restaurar 12 milhões de hectares. Para jornalistas e sociedade civil, os dados disponibilizados de forma transparente podem ajudar a contar histórias ou criar novos projetos, contribuindo para dar escala e disseminando as práticas de restauração.

Também para as empresas a plataforma pode ser crucial. Muitas companhias estão hoje preocupadas e engajadas em princípios de sustentabilidade. A plataforma pode ajudá-las a reunir informações sobe a cadeia de fornecimento de diversos produtos, garantindo por exemplo a compra de matéria-prima proveniente de áreas reflorestadas, em vez de desmatadas. Além disso, com essas informações é possível estabelecer estratégias mais adequadas para atingir as metas e também contribuir no planejamento das ações necessárias para uma efetiva restauração.

Uma plataforma de monitoramento pode ser a peça que falta para que a restauração no Brasil acelere e ganhe escala. Com intenso trabalho de organizações como WRI Brasil, TNC, Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, Imazon e Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, esperamos que o reflorestamento possa ser monitorado com confiança, garantindo a consolidação da restauração florestal no país.

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