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Sistemas Agroflorestais (SAFs): o que são e como aliam restauração e produção de alimentos

O Brasil tem pela frente o grande desafio de restaurar florestas e paisagens, recuperando milhões de áreas degradadas e regenerando florestas. Essa restauração é crucial para cumprir com os compromissos climáticos e ajudar o país a fazer a transição para uma economia de baixo carbono.

Para que essa restauração florestal ganhe escala, é importante que ela gere oportunidades no campo para agricultores e agricultoras familiares, produtores e produtoras rurais, comunidades e empresas. Há formas de gerar melhorias ambientais e, ao mesmo tempo, criar oportunidades de trabalho e renda no campo. Em uma série de três artigos, o WRI Brasil mostra alguns desses modelos, identificando o importante papel que eles exercem dos pontos de vista ambiental, econômico e social. Neste primeiro texto, conheça mais sobre os Sistemas Agroflorestais, também conhecidos como SAFs ou agroflorestas.


ícone representando um sistema agroflorestalícone representando a silvicultura de espécies nativasícone representando um sistema integrado lavoura, pecuária e floresta

SAFs: o que são e quais as vantagens ecológicas e econômicas

Um sistema agroflorestal é uma forma de uso e ocupação do solo em que árvores são plantadas ou manejadas em associação com culturas agrícolas ou forrageiras. Em outras palavras, é um sistema em que o produtor planta e cultiva árvores e produtos agrícolas em uma mesma área, garantindo a melhora de aspectos ambientais e a produção de alimentos e madeira.

Para ser um sistema agroflorestal efetivo, é importante que esse sistema seja desenhado seguindo uma lógica de produção, levando em consideração solo, clima, mercado, composição de espécies, arranjos, operação, objetivo com a produção, custos e a legislação. O objetivo é garantir que as espécies trabalhem juntas. Por exemplo, algumas espécies agrícolas já consolidadas, como cacau, café ou erva-mate, crescem bem na sombra de árvores. O produtor pode combinar esses plantios com árvores como araucárias, seringueiras, açaizeiros, entre outras.

Os benefícios econômicos para os produtores são múltiplos. Primeiro, eles garantem renda ao longo do tempo, porque podem comercializar primeiro as espécies agrícolas de crescimento rápido, depois espécies de médio prazo, como as frutíferas e, no longo prazo, as espécies madeireiras de alto valor agregado. As árvores plantadas no sistema também podem funcionar como uma “aposentadoria” para agricultores familiares – elas podem demorar décadas para crescer e serem comercializadas, mas quando chega a hora da colheita, proporcionam um bom retorno do investimento inicial.

As vantagens ambientais também são grandes. As árvores têm importante papel na redução da degradação, melhora da qualidade do solo e da água da propriedade, entre outros.

Pesquisas recentes mostram também que os Sistemas Agroflorestais podem exercer um importante papel na adaptação a eventos climáticos extremos. As alterações nos padrões do clima são uma ameaça à produção agrícola em todo o mundo. Estimativas indicam que as mudanças climáticas podem reduzir a produtividade global da agricultura em 17%. O IPCC identificou o plantio em sistemas agroflorestais como uma das medidas mais interessantes para a adaptação climática, tornando as propriedades rurais mais resilientes e resistentes a pragas, secas e inundações.

Quem está produzindo com sistemas agroflorestais no Brasil

Os sistemas agroflorestais já são uma realidade no Brasil. Há milhares de iniciativas de agricultores familiares produzindo e restaurando ao mesmo tempo no país todo. Na Amazônia, por exemplo, a Aliança pela Restauração da Amazônia identificou mais de 1.600 iniciativas de restauração por meio de SAFs no bioma. Na Mata Atlântica, o podcast Tom da Mata, do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, teve um episódio exclusivo sobre as agroflorestas. E movimentos sociais também apostam nos SAFs: o MST, por exemplo, colocou as agroflorestas como elemento-chave de seu plano de plantar 1 milhão de árvores.

A série As Caras da Restauração, do WRI Brasil, contou algumas histórias de pessoas que estão fazendo a restauração acontecer – muitas delas se utilizando dos modelos de sistemas agroflorestais. Em Juruti, no Pará, a mandioca, principal fonte de renda, é cultivada junto com árvores em um sistema integrado. A família Soares é uma das que mudaram sua relação com a terra e hoje colhem os frutos do cultivo utilizando SAFs. A família substituiu as práticas de monocultura e o uso do fogo para limpar a terra pelo consórcio entre diferentes espécies. Com isso, deixaram de depender apenas da mandioca. A família está gerando renda com a venda de frutas, óleos, essências e outros produtos agrícolas que oferecem mais segurança alimentar, renda e resiliência.

Outra história de sucesso é a de Patrick Assumpção. Em Pindamonhangaba (SP), Patrick comanda a Fazenda Nova Coruputuba, onde testou diferentes modelos de sistemas agroflorestais. Os testes combinaram o plantio de madeira nativa com leguminosas; madeira, leguminosas e frutas; ou, ainda, o plantio de plantas com valores culturais ou tradicionais. Os resultados indicam quais modelos tiveram melhor desempenho na região, e podem ser adaptados e espalhados por todo o Vale do Paraíba, desencadeando um movimento pela restauração.

Como aumentar a escala dos sistemas agroflorestais

Muitas iniciativas já mostram que SAFs são um bom negócio tanto para os produtores quanto para o meio ambiente. Mas como impulsionar esse modelo para que ganhe escala e se espalhe pelo país? O primeiro passo é aprofundar conhecimentos sobre fatores como taxa de crescimento, produtividade e mercado, além de identificar bons modelos (de negócios e de plantio) para atrair investimentos. Empreendimentos que trazem inovação para o setor também são essenciais para implementar transformações com base nos conhecimentos aprofundados.

Em parceira com a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), o WRI Brasil criou a ferramenta de investimento VERENA, que permite analisar o retorno financeiro de modelos de reflorestamento com espécies nativas e sistemas agroflorestais. Na mesma linha, a Metodologia de Avaliação de Oportunidades de Restauração (tradução da sigla em inglês ROAM) avalia os fatores da paisagem que podem favorecer a restauração e ajuda a engajar e articular os agentes e entender suas necessidades e desafios, identificando o quê, como e onde empreender esforços de restauração. A metodologia parte da análise de dados para indicar boas oportunidades, avaliando o custo-benefício e assinalando possíveis fontes de recursos públicos e privados.

Como o WRI Brasil atua para promover sistemas agroflorestais

Por meio do projeto Verena, o WRI Brasil tem apoiado startups e empresas com negócios inovadores que promovem a restauração e reflorestamento. Essas empresas inovam na forma em que levam conhecimento ao campo, na organização da cadeia produtiva, e também nas estruturas financeiras que levam recursos de investidores até a implementação em campo. Assim, parcerias entre as organizações levam o conhecimento até o campo, com a missão de contribuir para o ganho de escala da restauração.

O uso da metodologia ROAM identificou um grupo relevante para a restauração: os pequenos produtores assentados pela reforma agrária, organizados por meio do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Com o plano “Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis”, o movimento almeja plantar 100 milhões de árvores em todo o país até 2030. O WRI Brasil tem colaborado compartilhando conhecimento técnico por meio da realização de atividades de capacitação sobre restauração em diferentes paisagens

Outro exemplo é o projeto Renovando Paisagem, resultado de parceria com a Fundação Renova, que aliou a restauração florestal ao uso de técnicas sustentáveis de produção agropecuária em Minas Gerais para transformar sistemas anteriormente extrativistas ou de baixa tecnologia em modelos de manejo sustentável e alta produtividade. Além disso, a partir das experiências em campo e consulta com atores, foram sistematizadas oportunidades para promover a agenda junto aos municípios na região de Mariana.

Em paralelo à assistência técnica, o apoio para obter recursos e investidores também é fundamental. O Pró-Restaura, por exemplo, ajudou a atrair recursos para promover a restauração no Vale do Paraíba Paulista (SP), na Bacia do rio Doce (MG) e no estado do Espírito Santo, em especial nas bacias de Itaúnas e São Mateus. Está apoiando também o desenvolvimento do plano de ação da Rede Agroflorestal do Vale do Paraíba com o objetivo de apoiar no planejamento de longo prazo para promoção de SAFs.

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