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Três estratégias para impulsionar a silvicultura de nativas no Brasil

O plantio e cultivo de árvores de espécies nativas brasileiras para uso econômico – a silvicultura de nativas – é uma importante oportunidade para o desenvolvimento econômico do Brasil. De um lado, é uma atividade que gera emprego, renda e divisas para o país, e do outro, tem grandes benefícios ambientais, como a absorção de carbono da atmosfera, melhoria da qualidade do solo e da água e a redução da pressão do desmatamento e degradação de florestas naturais.

Nos últimos cinco anos, o WRI Brasil, por meio do projeto Verena, vem identificando e modelando casos de sucesso, gerando conhecimento e desenvolvendo ferramentas, desenhando e fazendo análises econômicas de modelos, apoiando Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e aprimorando políticas públicas para aumentar os impactos e benefícios da silvicultura de nativas. O resultado é encorajador. O trabalho mostra que já existem investidores e empresas trabalhando com silvicultura de nativas no Brasil, e que essas empresas não só são economicamente viáveis e lucrativas como também produzem importantes benefícios para o meio ambiente.

Agora, o Projeto Verena entra em uma nova fase, com uma abordagem ainda mais focada em colaborar com o ganho de escala da silvicultura de nativas no Brasil.

Um olhar para o futuro

Apesar dos avanços da silvicultura de espécies nativas e da restauração em geral no Brasil nos últimos anos, a velocidade e escala da mudança ainda estão longe do ideal. O desafio da crise climática mostra que precisamos acelerar e aumentar a escala do plantio de árvores para capturar carbono na atmosfera – acredita-se que soluções baseadas na natureza como restauração e conservação representem até um terço da solução climática. Além disso, enfrentamos uma forte crise econômica por conta da pandemia, e atividades econômicas no campo são muito importantes para gerar emprego e renda no país.

Por isso, o projeto Verena atualizou suas premissas e sua Teoria de Mudança (TdM) para impulsionar ainda mais a silvicultura de nativas no Brasil. A nova Teoria de Mudança do Verena apresenta um novo olhar para o futuro. O objetivo é desenvolver e incentivar uma economia florestal a partir da silvicultura de nativas, da restauração de florestas e paisagens e de sistemas produtivos agropecuários mais inteligentes para gerar grandes benefícios sociais, ambientais e econômicos para o país.

Para construir essa visão de futuro, a nova teoria focará em três abordagens principais:

1. Inteligência de dados

O primeiro passo para qualquer mudança real é o conhecimento. Por isso, o trabalho de levantamento de dados, pesquisa e estudos sobre a silvicultura de nativas no Brasil é fundamental. Essa é uma área que o Verena já atuava nos últimos cinco anos, e que ganhará ainda mais relevância.

Junto com a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, o projeto Verena apoiou no desenvolvimento da proposta de um programa de Pesquisa & Desenvolvimento para espécies nativas do Brasil. A necessidade de um programa nacional vem da forma desigual com que recursos para pesquisa são destinados para espécies nativas. Enquanto a produtividade de muitas espécies agrícolas e florestais cresceu nas últimas décadas, a produtividade das nativas segue no mesmo patamar por falta de pesquisa.

Em abril de 2021, a Coalizão lançou o Programa de Pesquisa & Desenvolvimento de Espécies Nativas (PP&D-SEN). Esse programa tem como objetivo estabelecer 20 sítios de pesquisa para implantar experimentos florestais e desenvolver técnicas como o melhoramento genético de espécies de árvores brasileiras. A ideia é fomentar a pesquisa para 30 espécies da Amazônia e Mata Atlântica. Ao fomentar esse desenvolvimento, o programa tem o potencial de aumentar a produtividade, reduzir custos e impulsionar a silvicultura de nativas em todo o país.

<p>imagem de mudas de ipê-felpudo</p>

Mudas de ipê-felpudo, uma das 30 espécies selecionadas para o Programa de Pesquisa & Desenvolvimento de Espécies Nativas (foto: Aurelio Padovezi/WRI Brasil)

Outra frente importante de inteligência de dados está nos estudos econômicos. O projeto Verena levantou casos de sucesso de empresas e produtores rurais e, por meio de análises econômicas, identificou que a atividade tem retorno financeiro comparável a outras atividades agropecuárias.

Por fim, o trabalho de inteligência de dados também consiste em monitorar áreas com plantios florestais e entender os benefícios que essas áreas produzem, por exemplo, para a captura de carbono. Nesse sentido, o projeto apoia a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura no Observatório da Restauração e Reflorestamento, primeira plataforma a apresentar dados de satélite e de projetos compilando quanto de restauração e reflorestamento há no país.

2. Soluções para as grandes cadeias do agro

O Brasil já é uma potência agropecuária e pode ser tornar uma potência agroambiental. O agronegócio representou mais de um quarto do PIB em 2020, gerando parte significativa do emprego e da renda no país. Ao mesmo tempo, é um setor que precisa lidar com desafios para se tornar mais produtivo e sustentável no longo prazo, evitando desmatamento, degradação das florestas naturais e degradação do solo.

A silvicultura de nativas pode ser uma atividade adotada por grandes cadeias do agronegócio para adequação das propriedades rurais à lei de Proteção da Vegetação Nativa (conhecida como novo Código Florestal), para recuperar áreas degradadas e diminuir o desmatamento das cadeias produtivas, além de estimular atividades econômicas como a comercialização de produtos florestais madeireiros e não-madeireiros das florestas plantadas com espécies nativas. Tais produtos não somente atendem à demanda de mercados já existentes, mas também podem substituir produtos de alta emissão de carbono.

Ou seja, o projeto Verena trabalha junto com tais cadeias de valor para apresentar soluções econômicas que contribuam para a solução de seus desafios através do plantio e cultivo de árvores nativas como alternativa ao desmatamento, degradação e outras práticas não sustentáveis. Entre essas ações está o apoio no desenvolvimento de modelos e planos de negócios de empresas de silvicultura de nativas, a criação de teses de investimento para atrair recursos para a recuperação de áreas degradadas no Brasil e o acompanhamento de impacto social, econômico e ambiental da silvicultura de nativas no país.

3. Hub de articulação

Uma organização sozinha não conseguirá fazer as transformações necessárias para incentivar uma nova economia florestal com espécies nativas. É preciso trabalhar junto e envolver todos os atores possíveis – governos, empresas, produtores rurais, sociedade civil e academia, além do público consumidor. Através de suas conexões e capacidade de articulação conjunta com estes atores, o projeto Verena se propõe a atuar como um hub da silvicultura de nativas no Brasil para fortalecer o ambiente institucional desta economia florestal.

Um dos objetivos é que produtores e empresas rurais tenham segurança jurídica para praticar a atividade atendendo às normas vigentes. Para isso, a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura é um movimento chave de atuação conjunta para que sejam criadas e/ou aprimoradas as devidas regulamentações estaduais sobre o cultivo das espécies nativas.

Outra ação é construir uma rede de silvicultura de espécies nativas que conecte investidores com empreendedores e ajude a viabilizar recursos para quem está fazendo a silvicultura de nativas acontecer no campo. Além disso, articular junto ao poder público e a sociedade civil para derrubar barreiras e entraves, criar incentivos e regulamentar dispositivos da legislação que darão segurança jurídica aos produtores.

Por fim, esse hub trabalhará na capacitação, apresentando ferramentas e métodos para produtores rurais, comunicando as oportunidades e benefícios da silvicultura de nativas e catalisando o encontro de projetos que necessitam de financiamento com agentes interessados em investir.

teoria de mudança do verena

Os resultados da mudança

Com a sua nova Teoria de Mudança, o WRI Brasil espera conseguir apoiar produtores rurais, empresas, governos e a sociedade brasileira a destravar e aumentar a escala da silvicultura de espécies nativas.

Essa nova visão pode resultar em grandes ganhos para o país, entre eles a recuperação de milhões de hectares de áreas degradadas, a promoção de sistemas agropecuários mais resilientes, a geração de emprego e renda no campo e a contribuição nas metas de restauração e reflorestamento no Brasil. A silvicultura é uma estratégia “ganha-ganha”, em que todos se beneficiam econômica e ambientalmente.

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