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Setor automotivo precisará quebrar paradigmas para ter papel relevante na economia verde

A indústria automotiva brasileira pode se renovar e cumprir papel importante na transição para uma economia verde – o caminho cada vez mais adotado por mercados mundo afora na retomada da crise causada pela pandemia de Covid-19. A mudança, no entanto, não será no curto prazo e dependerá de uma série de fatores como a inclusão da agenda ambiental como norteadora de decisões futuras, alterações na configuração da matriz energética e maior participação da sociedade civil nos processos decisórios.

Estas foram algumas das reflexões ao final do webinar Economia Verde e a Renovação do Setor Automotivo com a participação de Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente, Roberto Schaeffer, professor de Economia da Energia do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, e Adalberto Maluf, diretor de Marketing, Sustentabilidade e Novos Negócios da BYD. O webinar abriu a série Os Desafios da Qualidade do Ar no Brasil, organizada no mês de outubro pelo WRI Brasil em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS).

Historicamente importante para a economia do país, o setor automotivo também é um dos principais emissores de poluentes atmosféricos locais, especialmente quando tratamos de veículos pesados como caminhões e ônibus, muitos com tecnologia ultrapassada. No estado de São Paulo, por exemplo, juntos eles respondem por menos de 4% da frota de veículos rodoviários e por mais de 80% das emissões de material particulado (MP) e óxidos de nitrogênio (NOx). Esses são os dois dos principais poluentes locais emitidos por essa categoria de veículos que acabam agravando a saúde da população e aumentando as despesas do Estado com tratamentos, internações e mortes que poderiam ser evitadas – anualmente são mais de 51 mil vítimas fatais no Brasil, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde.

E como esse cenário poderia ser alterado? Com a descarbonização do setor de transporte no Brasil. Estudos de modelagem econômica conduzidos no cenário pré-Covid por Roberto Schaeffer mostram que haveria um pico de produção de etanol de primeira geração em 2030, mesmo ano em que a eletrificação de veículos leves começaria a se tornar uma realidade até ser realmente significativa em 2050. “A eletrificação é uma alternativa interessante para a questão da poluição atmosférica, em particular a urbana, e como alternativa de mitigação e de redução da demanda por combustível líquido”, acrescentou. “Essa já é uma tendência lá fora, e imagino que também vá ocorrer aqui no Brasil com um pequeno atraso.”

Os biocombustíveis, segundo Schaeffer, são também uma alternativa interessante para o setor automotivo brasileiro porque representam uma realidade própria do país. “Os biocombustíveis trazem desafios para a atual matriz energética do país, dos transportes e do uso do solo para a produção de matérias-primas”, explicou, “por isso o futuro do biocombustível pode e deve ser compatível com a tecnologia de eletrificação, inclusive com baterias alimentadas a partir do etanol (semelhante ao sistem de células de hidrogênio) e pelos modais com mais dificuldade de eletrificação, como é o caso da aviação, que seria abastecida com bioquerosene ou com alternativas mais avançadas de biomassa.”

Para Adalberto Maluf, diretor de Marketing, Sustentabilidade e Novos Negócios da BYD, empresa que atua no setor de energias limpas e mobilidade elétrica, o Brasil estaria perdido no debate de inovações. “O relatório do Banco Mundial publicado em pleno auge da pandemia de Covid-19 é pessimista em relação ao Brasil, indicando que o país só vem investindo em tecnologias do passado. A maior parte dos investimentos e das diretrizes dos nossos governos vêm sendo o petróleo, o gás, e basicamente não é isso que o mundo vem fazendo”, disse.

Ele acredita que o setor automotivo e o setor elétrico passam pelas suas maiores revoluções históricas. “Durante anos o motor de combustão esteve aí com pequenas melhorias e nunca foi questionado. Hoje ele está sendo questionado, e provavelmente está fadado a ficar em alguns poucos nichos de mercado porque não atende às demandas da economia verde.”

Maluf lembrou que o Acordo Verde Europeu (European Green Deal) reafirmou a vocação e o desejo da Europa de se tornar carbono neutra em 2050 a partir do fomento da indústria do futuro e da transição energética. “A Alemanha colocou 20 bilhões de euros para criar infraestrutura para os veículos elétricos e para a transformação da indústria do futuro. Na França, foram outros 12 bilhões de euros. A China disse que o próximo plano de desenvolvimento do país deve ser um ‘plano de desenvolvimento sustentável da década’. O Brasil, por sua vez, não tem metas.”

“A crise da Covid-19”, acrescentou Schaeffer, afetou violentamente o setor de transportes no mundo todo, “a ponto de haver dúvidas sobre seu futuro”. Segundo ele, havia mudanças em andamento na mobilidade urbana com o veículo próprio perdendo status entre as novas gerações, deslocamentos de bicicleta ganhando mais força e o transporte público se tornando mais confortável e com tecnologias como ar-condicionado e rede wi-fi. “Havia essa tendência que parecia se delinear lá atrás, mas a pandemia veio e temos dúvidas sobre a direção que vamos seguir agora. Um exemplo é a venda dos automóveis de segunda mão nos Estados Unidos, que começou a aumentar.”

Para a ex-ministra de Meio Ambiente Izabella Teixeira, a pandemia trouxe “o futuro para o presente” e há dúvidas sobre o que irá acontecer quando a pandemia arrefecer. “Do ponto de vista político, ficou claro que precisamos de novas agendas, novos compromissos. O Brasil precisa evitar o retrocesso enquanto o mundo trabalha pelo green recovery (retomada verde). Ou seja, estamos um passo atrás nas políticas ambientais, nas questões climáticas e nas sinergias com outras políticas públicas de desenvolvimento. É importante entender que as discussões sobre esses temas não podem estar vinculadas a debates ideológicos”, acrescentou.

“Hoje estou dialogando com o que chamo de ‘rede de improváveis’”, contou a ex-ministra, “com muito mais pessoas querendo acertar do que errar. Por isso, precisamos montar redes de pessoas que entendam como as práticas ambientais se relacionam e também indicar responsabilidades a cada uma delas.”

De acordo com a ex-ministra, o Brasil precisa de um salto qualitativo no seu posicionamento ambiental e de parcerias e cooperação internacional sem a vilanização do estrangeiro, já que o relatório “The Green Swan”, divulgado antes da pandemia pelo Banco de Compensações Internacionais, mostrou que “a questão climática assumirá um papel estratégico na estabilidade do sistema financeiro internacional”.

A ex-ministra finalizou sua participação no webinar fazendo um alerta para a sociedade brasileira, que precisa entender as relações de causa e efeito e repactuar suas necessidades ambientais. “O Brasil tem poucos espaços de diálogo com a sociedade que não sejam os tradicionais, e que precisamos renovar. A sociedade precisa se engajar e entender que a agenda ambiental e as mudanças climáticas também estão ocorrendo em seu país. Não vejo a sociedade demandando um conselho de meio ambiente no Estado, nos grupos de aconselhamento do governador, ou demandando uma política de qualidade do ar. Nós, brasileiros, temos que sair da nossa zona de conforto. É preciso arregimentar pessoas e cobrar políticas mais concretas do subnacional, dos governadores, das assembleias legislativas, abrindo espaços novos para o diálogo.”

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